Durante mais de 2 anos escrevi uma centena de artigos defendendo a Vale, condenando sua "privatização", tentando impedir que entregassem uma das maiores riquezas do mundo e do Brasil. A Vale era e continua sendo a maior empresa de mineração do mundo e mais do que isso, uma Agência de Desenvolvimento. Tudo foi doado, não conseguiu salvar coisa alguma.
Esses artigos correram o Brasil todo, foram republicados em órgãos alternativos, enviados para milhões de pessoas através de faxes, xeroxes, cópias de todas as formas. Nada disso adiantou. Em todos os artigos eu deixava bem claro que as multinacionais queriam a própria Vale. Empresa poderosíssima, altamente lucrativa, com penetração em pelo menos 12 estados da Federação.
Dona de portos, navios, ferrovias, as mais ricas e cobiçadas minas dos mais raros e caros minérios, a Vale era o alvo e o objetivo de tudo. Apesar do esforço de um grupo bravo e com enorme credibilidade, não conseguimos impedir a doação-privatização dessa potência que se chama Vale.
Ministros do governo FHC, senadores, lobistas, testas-de-ferro de poderosos grupos estrangeiros, gente interessada em enriquecer cada vez mais com o empobrecimento do Brasil diziam sempre a mesma coisa.
O que é que repetiam tanto? Apenas isto: "Vamos vender a Vale para pagar a dívida interna, amortizar quase toda ela, e pagar menos juros". Tudo mentira, mistificação, malabarismo-corrupto. Recebemos uma miséria e cada vez devemos mais.
Outra coisa que fazíamos questão de ressaltar sempre era o seguinte, cada vez mais atual: por trás da doação da Vale estava e está sempre mais visível a gigantesca Amazônia. Os multinacionais e seus testas-de-ferro não podiam nem podem admitir que a Amazônia seja brasileira, pelo menos uma parte. Aproveitando o seminário sobre a Amazônia, promovido pelo IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros), vamos reproduzir algumas opiniões de vendilhões do templo sobre a Amazônia brasileira.
Al Gore, vice-presidente dos EUA, e provável candidato à sucessão de Clinton, que não pode mais se candidatar: "Os brasileiros pensam que a Amazônia é deles. Estão muito enganados. A Amazônia é de todos nós".
Kissinger, lobista notório, ex-secretário de Estado dos EUA: "Os países industrializados do mundo, para sobreviverem, precisam dos recursos não renováveis do mundo. E entre esses recursos de que precisam o mais importante é a Amazônia do Brasil".
Agora que o Congresso está "trancado" pelas medidas provisórias. Que o Supremo está em recesso. E que a indústria dos habeas-corpus está paralisada para reposição do estoque, tratemos da Vale e da Amazônia, eternas e imprescindíveis ao nosso desenvolvimento.
PS - A Vale parece perdida para sempre. Mas a Amazônia cobiçada por todas as potências ainda pode ser salva. Minc poderia ser uma possibilidade, deslumbrou muito cedo.
PS 2 - Se os Três Poderes permanecerem desativados, continuarei amanhã. A Amazônia é eterna, vale a vida de dezenas de milhões de brasileiros.
José Gomes Graciosa
Quando presidiu o TCE, fez microfilmagem a peso de ouro. Mais de 4 milhões. Agora, com outro presidente, apenas 900 mil.
Fui o primeiro a descobrir e publicar os escândalos do TCE (Tribunal de Contas do Estado do Rio). Mas sei reconhecer: a Veja, que continua Sujíssima (principalmente depois de receber 150 milhões da África do Sul), foi mais longe do que eu. Só que se escondeu no anonimato, denunciou apenas 5 conselheiros, devia exaltar os outros dois, já que são 7. O clima é de pânico no TCE, falam até em suicídio.
Como é que o TCE pretende credibilidade quando aceitou que o filho do governador fosse nomeado conselheiro? Jamais trabalhou na vida, mas é dono de terras valorizadas, como comprou?
Controla Resende, Itatiaia, Nogueira e mais uma porção de localidades. Tem até uma hípica, mais importante do que a do Rio.
Ontem às 9 horas da manhã, um grupo de sindicalistas ligados à CUT protocolou pedido de impeachment do presidente do Supremo, Gilmar Mendes. O pedido está muito bem fundamentado.
Base do pedido: os dois habeas-corpus concedidos pelo presidente do Supremo, aproveitando que o tribunal está em recesso. Mas deveria ter sido pedido ao Senado, que pode votar o impeachment de Gilmar. O Supremo também pode.
Impressionante: Daniel Dantas, Eike Batista e Cacciola aparecem em todas as fotos e na televisão exibindo enorme bom humor. Riam o tempo todo. Furiosos só Naji Nahas e Celso Pitta.
A questão sensibilizou a própria Justiça, que mandou algemar Daniel Dantas. Tanto isso é verdadeiro, que Cacciola, que vinha preso para o Brasil, pediu para não ser ALGEMADO. E a Justiça atendeu o pedido.
Quando é que a ALGEMA é necessária, até insubstituível? Ou então significa fragilidade da polícia, que apesar de todo o aparato tem medo de "perder" o prisioneiro? Mas sobre um fato, nenhuma dúvida: os desesperançados da vida continuarão sendo ALGEMADOS.
Falam muito em grampo, como se fosse coisa do outro mundo. Meus telefones foram grampeados oficialmente durante 20 anos.
Conversando sobre o assunto com Antonio Galotti, então todo-poderoso do sistema, ele me disse calmamente: "Helio, a coisa mais fácil é grampear telefone. Basta um funcionário subir num poste perto da tua casa e pronto".
Dizer que o major Curió "lutou contra a guerrilha do Araguaia" é desinformação completa. Lutou pelo próprio enriquecimento, conseguiu, parecia um vitorioso. Chegou a se eleger prefeito da cidade de Curionópolis, lógico, derivado do seu próprio nome.
Ganhou fortuna explorando os garimpeiros, chegou a colocar cartazes: "A Serra Pelada é nossa", na verdade era dele. O TSE acabou com a festa, cassou o mandato dele. Excelente.
Além de responder a tantos processos quanto Daniel Dantas, e pelas mesmas motivações, Henrique Meirelles dá uma entrevista por dia.
A de ontem: "Se a China desacelerar o crescimento econômico, os preços cairão no mercado". E se alguém disser isso ao Brasil?
Um ano da morte de 199 pessoas que estavam no avião da TAM. Ninguém recebeu nada, nem em dinheiro nem em atenção. E as autoridades estaduais e federais? Não tomam providências, ficam esperando o quê?
Desde 1999, os passageiros da TAM estão na mesma situação. A única diferença: um acidente completa 1 ano, o outro já está chegando a 10 anos. As empresas só fazem "retardar" as ações.
Deputados e senadores protestam contra o "excesso de medidas provisórias". Os parlamentares esquecem: PSDB e PFL (hoje DEM) apoiaram integralmente FHC, que disse textualmente: "Sem medida provisória não há governabilidade". E inundou o Congresso com esse abuso.
Desesperado, desprestigiado, desastrado (royalties para Beltrame) Serginho Cabralzinho filhinho pediu à TV Globo que queria falar no RJ TV. Atacou a corporação, quase linchou os policiais, abriu uma crise visível entre o governo e a oficialidade, citada assim.
Textual do governador: "A situação do Rio é de calamidade". E perguntou: "Que cidade é essa em que policiais morrem nas ruas?"
Garantiu: "É preciso que os oficiais da PM se aproximem dos soldados, dos sargentos, de toda a tropa". Mostrou que há divisão.
Continuou, ninguém conseguia fazer que parasse: "É preciso MENOS gabinete e MAIS rua". Uma constatação: os policiais não estão nas ruas. Contradição: o governador diz que estão morrendo nas ruas.
O governador não falou, nem ia falar, das centenas de oficiais que estão "requisitados fora das ruas". Só na Alerj são mais de 300, dando segurança a deputados inseguros.
Não falou no PM que matou um estudante na boate Baronetti. Esqueceu que o assassinato ocorreu entre 5 e 6 horas da manhã. Quer dizer: o PM passou a noite na boate, a que horas trabalhou?
XXX
Quando eu era garoto, cerveja era BRAHMA, guaraná ANTÁRTICA, soda limonada, HANSEÁTICA, todas brasileiras. Hoje são todas multinacionais, anunciam vastamente. Naturalmente essa publicidade é para defender a Liberdade de Expressão. A "lei seca", quem sabe, pode prejudicar essa LIBERDADE que os cervejeiros defendem com tanta bravura.
XXX
Dos jornalões em manchete: "Braço direito de Daniel Dantas se entrega". E o braço esquerdo, não serve? Canhotos estão preparando manifesto defendendo essa condição.
XXX
Já se passaram 3 dias da licença de Gilberto Carvalho do Planalto. Faltam 12 dias de angústia para ele, de suspense para o Planalto. Voltará?
Quando o general McArtur, por ordem do presidente Roosevelt, deixou as Filipinas, retumbou: "Eu voltarei". E voltou mesmo.
XXX
O Deutsche Bank é o quinto a "desaconselhar" a compra de ações de empresas de Eike Batista. DESACONSELHAR? Ha! Ha! Ha!
sábado, 19 de julho de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Tão organizados como os narcotraficantes (Carlos Chagas - Tribuna da Imprensa)
BRASÍLIA - Deve dar graças a Deus o delegado Protógenes Queiroz por haver sido afastado da operação envolvendo Daniel Dantas sob a alegação de precisar freqüentar em tempo integral um curso de aperfeiçoamento para policiais. Estivéssemos na Itália de tempos atrás e seria diferente: ao transitar por uma ponte qualquer, seu carro explodiria, com ele dentro.
Os métodos são diferentes, mas a Máfia é a mesma, lá e cá. Pode o ministro Tarso Genro comentar "mera coincidência" no afastamento do delegado, como pode o presidente Lula criticar o uso de algemas e a espetacularização das prisões, mas, na verdade, Protógenes Queiroz foi defenestrado porque incomodava. Pior ainda, porque seguiria em frente no inquérito, a um passo de comprovar a tentativa de suborno praticada por Daniel Dantas contra colegas seus. Quer dizer, de levar o cidadão para a cadeia, sem direito a habeas-corpus.
Alega-se uma decisão burocrática da cúpula da Polícia Federal, situação idêntica àquela que se conta para as crianças sobre o diálogo entre o lobo e o cordeiro. O crime de colarinho branco demonstra estar tão bem ou mais organizado do que o narcotráfico. Primeiro por plantar na imprensa uma sucessão de meias notícias visando denegrir o policial. Depois, porque nem o Palácio do Planalto constituiu-se em obstáculo para impedir a punição de um funcionário público que cumpria o seu dever. Ou precisamente por isso.
Daniel Dantas deve estar esfregando as mãos de satisfação e apregoando aos sete ventos que mexer com ele sempre será uma fria. Para onde vai o inquérito é pergunta ainda sem resposta, mas os delegados que sucederem Protógenes Queiroz estarão com as barbas de molho. Cada episódio, a partir de agora, precisará seguir minuciosa cadeia de cautela. Para botar uma equipe na rua os delegados consultarão até o contínuo que serve cafezinho nos gabinetes de seus incontáveis superiores.
E de lá para cima, passando pelo Ministério da Justiça, juízos de primeira instância, tribunais superiores e sucedâneos. Alguém duvida de que numa dessas fases, ou em várias delas, não estarão simpatizantes e assalariados de Daniel Dantas, sempre um lance adiante, preparados para alertar o banqueiro?
O segredo deixará de ser a alma do negócio, ou melhor, das investigações. Uma lição a mais passada pelos praticantes de crimes financeiros. Só falta mesmo ganhar o País o slogan de que "basta de intermediários, Daniel Dantas para presidente".
O Poder Moderador
Durante a semana ainda fluíam pelos corredores do Congresso agora posto em recesso comentários nada simpáticos à iniciativa do presidente Lula de reunir em seu gabinete o presidente do Supremo Tribunal Federal e o ministro da Justiça, visando pacificá-los. Tratou-se da repetição de uma figura singular em nossas instituições dos tempos do Império, a "chave de toda a organização política", ou seja, o renascimento do Poder Moderador.
Cabia ao imperador exercer esse poder, destinado a velar sobre "a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos". Estabeleciam-se situações que seriam cômicas se não fossem trágicas com quatro cadeiras e apenas três pessoas. Sempre que se verificava um impasse ou uma dissensão entre o Executivo e o Legislativo, ou o Executivo e o Judiciário, o imperador levantava-se da cadeira de chefe do Poder Executivo, que era, sentava-se na cadeira de chefe do Poder Moderador e dizia: "Agora vamos resolver a questão." Imagine-se como...
Fez coisa parecida o presidente Lula. Estava em choque o Judiciário, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o Executivo, pelo ministro da Justiça, Tarso Genro. Quem decidiu o conflito, até mesmo sem precisar deslocar-se da cadeira onde se posicionava em seu gabinete?
Tomara que não sejam seguidas as demais lições da Constituição de 1824, nesse capítulo, senão logo serão editadas medidas provisórias estabelecendo que "a pessoa do presidente é inviolável e sagrada: ele não está sujeito a responsabilidade alguma"...
Suco de uva em vez de vinho
Tudo tem limite, até essa polêmica Lei Seca, responsável pela diminuição do número de acidentes nas rodovias nacionais, mas em contrapartida, exprimindo uma lesão aos direitos individuais por proibir até mesmo a ingestão de um bombom de licor pelos motoristas.
Aconteceu pior na região de Ribeirão Preto. Um padre havia acabado de rezar missa em sua paróquia, mas deveria repetir a cerimônia num distrito próximo. Deslocou-se de carro e foi parado numa blitz da Polícia Rodoviária. Submetido ao bafômetro, viu-se reprovado. Havia tomado, no altar, o sagrado e histórico copo de vinho. A partir de agora, examina a hipótese de substituir o simbólico sangue de Cristo por um copo de suco de uva. Ainda bem que não se fabrica mais o "grapete", senão alguma multinacional logo arranjaria jeito para desencadear intensa campanha publicitária nas igrejas...
Convenhamos, nesse episódio o policial agiu com bom senso, era católico praticante e dispensou o prelado. Mas se, por hipótese, pertencesse à Igreja Universal ou outra evangélica qualquer, ou se fosse agnóstico, levaria ao pé da letra a aplicação da lei? Cassar a habilitação do padre e multá-lo em mais de 900 reais por haver celebrado missa?
Livra-se da Lei Seca quem pode dar-se ao luxo de dispor de motorista, ou, como derivativo, aqueles que utilizarem os serviços de táxi agora oferecidos pelos donos de bar. Mas o cidadão comum, aquele que não se embriaga, mas aprecia uma latinha de cerveja, um uísque ou uma taça de vinho, encontra-se nas garras do poder público, se sair dirigindo seu veículo. É o mal que nos assola desde o Descobrimento: o exagero.
Vai entrar para rachar
Do Palácio do Planalto chegam rumores de que o presidente Lula mostra-se disposto a não deixar acontecer, em outubro, o que aconteceu quatro anos atrás, quando Marta Suplicy perdeu no segundo turno a reeleição para a prefeitura de São Paulo. Em 2004, para José Serra, agora sob o risco de perder para Geraldo Alckmin, conforme as pesquisas, mesmo saindo vitoriosa na primeira votação.
Mesmo negando-se a subir na maioria dos palanques de seus companheiros e aliados, o presidente abrirá exceções, uma delas em São Paulo. Tanto por Marta, que se dispôs a deixar a tranqüilidade do Ministério do Turismo pela disputa nas ruas, quanto pelo fato de que, derrotado na maior cidade do País, o PT se enfraquecerá para a sucessão presidencial de 2010.
A pergunta que se faz é se votos se transferem. Pelo menos, não com facilidade. Assim, surge o reverso da medalha: e se Marta for derrotada, mesmo com o presidente Lula no palanque, o desgaste não será maior?
Os métodos são diferentes, mas a Máfia é a mesma, lá e cá. Pode o ministro Tarso Genro comentar "mera coincidência" no afastamento do delegado, como pode o presidente Lula criticar o uso de algemas e a espetacularização das prisões, mas, na verdade, Protógenes Queiroz foi defenestrado porque incomodava. Pior ainda, porque seguiria em frente no inquérito, a um passo de comprovar a tentativa de suborno praticada por Daniel Dantas contra colegas seus. Quer dizer, de levar o cidadão para a cadeia, sem direito a habeas-corpus.
Alega-se uma decisão burocrática da cúpula da Polícia Federal, situação idêntica àquela que se conta para as crianças sobre o diálogo entre o lobo e o cordeiro. O crime de colarinho branco demonstra estar tão bem ou mais organizado do que o narcotráfico. Primeiro por plantar na imprensa uma sucessão de meias notícias visando denegrir o policial. Depois, porque nem o Palácio do Planalto constituiu-se em obstáculo para impedir a punição de um funcionário público que cumpria o seu dever. Ou precisamente por isso.
Daniel Dantas deve estar esfregando as mãos de satisfação e apregoando aos sete ventos que mexer com ele sempre será uma fria. Para onde vai o inquérito é pergunta ainda sem resposta, mas os delegados que sucederem Protógenes Queiroz estarão com as barbas de molho. Cada episódio, a partir de agora, precisará seguir minuciosa cadeia de cautela. Para botar uma equipe na rua os delegados consultarão até o contínuo que serve cafezinho nos gabinetes de seus incontáveis superiores.
E de lá para cima, passando pelo Ministério da Justiça, juízos de primeira instância, tribunais superiores e sucedâneos. Alguém duvida de que numa dessas fases, ou em várias delas, não estarão simpatizantes e assalariados de Daniel Dantas, sempre um lance adiante, preparados para alertar o banqueiro?
O segredo deixará de ser a alma do negócio, ou melhor, das investigações. Uma lição a mais passada pelos praticantes de crimes financeiros. Só falta mesmo ganhar o País o slogan de que "basta de intermediários, Daniel Dantas para presidente".
O Poder Moderador
Durante a semana ainda fluíam pelos corredores do Congresso agora posto em recesso comentários nada simpáticos à iniciativa do presidente Lula de reunir em seu gabinete o presidente do Supremo Tribunal Federal e o ministro da Justiça, visando pacificá-los. Tratou-se da repetição de uma figura singular em nossas instituições dos tempos do Império, a "chave de toda a organização política", ou seja, o renascimento do Poder Moderador.
Cabia ao imperador exercer esse poder, destinado a velar sobre "a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos". Estabeleciam-se situações que seriam cômicas se não fossem trágicas com quatro cadeiras e apenas três pessoas. Sempre que se verificava um impasse ou uma dissensão entre o Executivo e o Legislativo, ou o Executivo e o Judiciário, o imperador levantava-se da cadeira de chefe do Poder Executivo, que era, sentava-se na cadeira de chefe do Poder Moderador e dizia: "Agora vamos resolver a questão." Imagine-se como...
Fez coisa parecida o presidente Lula. Estava em choque o Judiciário, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o Executivo, pelo ministro da Justiça, Tarso Genro. Quem decidiu o conflito, até mesmo sem precisar deslocar-se da cadeira onde se posicionava em seu gabinete?
Tomara que não sejam seguidas as demais lições da Constituição de 1824, nesse capítulo, senão logo serão editadas medidas provisórias estabelecendo que "a pessoa do presidente é inviolável e sagrada: ele não está sujeito a responsabilidade alguma"...
Suco de uva em vez de vinho
Tudo tem limite, até essa polêmica Lei Seca, responsável pela diminuição do número de acidentes nas rodovias nacionais, mas em contrapartida, exprimindo uma lesão aos direitos individuais por proibir até mesmo a ingestão de um bombom de licor pelos motoristas.
Aconteceu pior na região de Ribeirão Preto. Um padre havia acabado de rezar missa em sua paróquia, mas deveria repetir a cerimônia num distrito próximo. Deslocou-se de carro e foi parado numa blitz da Polícia Rodoviária. Submetido ao bafômetro, viu-se reprovado. Havia tomado, no altar, o sagrado e histórico copo de vinho. A partir de agora, examina a hipótese de substituir o simbólico sangue de Cristo por um copo de suco de uva. Ainda bem que não se fabrica mais o "grapete", senão alguma multinacional logo arranjaria jeito para desencadear intensa campanha publicitária nas igrejas...
Convenhamos, nesse episódio o policial agiu com bom senso, era católico praticante e dispensou o prelado. Mas se, por hipótese, pertencesse à Igreja Universal ou outra evangélica qualquer, ou se fosse agnóstico, levaria ao pé da letra a aplicação da lei? Cassar a habilitação do padre e multá-lo em mais de 900 reais por haver celebrado missa?
Livra-se da Lei Seca quem pode dar-se ao luxo de dispor de motorista, ou, como derivativo, aqueles que utilizarem os serviços de táxi agora oferecidos pelos donos de bar. Mas o cidadão comum, aquele que não se embriaga, mas aprecia uma latinha de cerveja, um uísque ou uma taça de vinho, encontra-se nas garras do poder público, se sair dirigindo seu veículo. É o mal que nos assola desde o Descobrimento: o exagero.
Vai entrar para rachar
Do Palácio do Planalto chegam rumores de que o presidente Lula mostra-se disposto a não deixar acontecer, em outubro, o que aconteceu quatro anos atrás, quando Marta Suplicy perdeu no segundo turno a reeleição para a prefeitura de São Paulo. Em 2004, para José Serra, agora sob o risco de perder para Geraldo Alckmin, conforme as pesquisas, mesmo saindo vitoriosa na primeira votação.
Mesmo negando-se a subir na maioria dos palanques de seus companheiros e aliados, o presidente abrirá exceções, uma delas em São Paulo. Tanto por Marta, que se dispôs a deixar a tranqüilidade do Ministério do Turismo pela disputa nas ruas, quanto pelo fato de que, derrotado na maior cidade do País, o PT se enfraquecerá para a sucessão presidencial de 2010.
A pergunta que se faz é se votos se transferem. Pelo menos, não com facilidade. Assim, surge o reverso da medalha: e se Marta for derrotada, mesmo com o presidente Lula no palanque, o desgaste não será maior?
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Voando de costas (Sebastião Nery - Tribuna da Imprensa)
Simpático, elegante, boa conversa, boa gente, ele vivia nos bares, restaurantes, festas, nas chamadas "boas rodas" da sociedade paulista. Um dia, para surpresa dos amigos, cansou, sumiu completamente. Apareceu agricultor em Valinhos, a 60 quilômetros de São Paulo.
Tinha arranjado seis alqueires de terra, conseguiu financiamento agrícola no Banco do Brasil, plantou tudo que dava na região, uma beleza. De repente, chega a notícia: estava preso numa delegacia de São Paulo. José Paulo Freire, o Zé do Pé, fiel aos amigos 24 horas por dia, foi lá.
- O que é que aconteceu?
- Minha roça. Fui plantando, nos seis alqueires, tudo que dava por lá. Um dia, plantei outra coisa, deu azar. Maconha. Um alqueirizinho só.
- Como é que descobriram?
- O diabo dos passarinhos. Os passsarinhos comiam a sementinha, ficavam maluquinhos, num barato, e começavam a voar de costas. A vizinhança nunca tinha visto passarinho voar de costas. A polícia apareceu.
José Paulo Freire achava que a "Esquadrilha da Fumaça" nasceu ali.
Em pane
No mesmo dia em que o saudoso Zé do Pé me contou essa história, em almoço no Padock, em São Paulo, fui a uma assembléia do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Saí assustado e escrevi esse texto, que publiquei aqui, em 26 de março de 1978. Título: "Aeroportos em pane".
Exatamente há 30 anos. Parece que foi ontem e que adivinhei.
1 - "O Brasil tem uma das maiores redes aéreas do mundo. Todos sabem. A aviação brasileira é uma das mais adiantadas do mundo. Todos sabem. O Brasil utiliza os mais modernos aviões do mundo. Todos sabem.
Mas não sei se vocês sabem que os aeroportos brasileiros são dos piores do mundo. Com alguns problemas graves. Tão graves que, a qualquer instante, podem transformar-se em gravíssimos. E vai ser tarde para chorar.
2 - Há uma regra mundial básica para aeroporto: jato só pode operar em aeroporto de mais de 2 mil metros. Mesmo jato menor, o Lear-Jet e o Boeing-737-200. Pois o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, encravado no coração da cidade imensa, tem exatamente 1.738 metros de pista. A segunda pista tem 1.300 metros.
Congonhas
3 - E no entanto em Congonhas estão descendo, todos os dias, até os novos Airbus, aviões enormes, alguns de mais de 200 passageiros, que exigem normalmente pistas mínimas de além de 2.200 metros.
Já nem cito o da Pampulha, em Belo Horizonte. Esse é hors-concours. Os pilotos sabem que é o pior do País. E continua funcionando, cada dia com mais aviões. (Foi o único realmente enxugado. Para Confins.)
4 - Não basta o Brasil comprar sempre novos aviões, reequipar suas empresas e aumentar dia a dia o padrão de seus serviços aéreos. Também não basta o aeronauta brasileiro, pilotos e comissários, ser considerado entre os mais preparados e eficientes da aviação mundial.
Avião não é passarinho, que voa do galho e desce na grama. E muito menos aterrissa de costas. Avião precisa de aeroporto. E os aeroportos brasileiros estão em pane. Precisam de socorro. Enquanto é tempo".
Jobim
Hoje (30 anos depois de escrever essa coluna), já faz um ano que o Airbus da TAM não freou e explodiu no minúsculo aeroporto de Congonhas, matando 199 pessoas. Não agiram enquanto era tempo.
E não querem agir agora. Anteontem, o ministro da Defesa Nelson Jobim deu inacreditáveis, levianas e irresponsáveis declarações:
"O aeroporto de Congonhas vive atualmente uma situação de segurança absoluta (sic). A situação de segurança em Congonhas é absoluta. Reduzimos de 48 para 34 os pousos e decolagens a cada hora: 30 para a aviação comercial e 4 para a aviação geral, que são os táxis aéreos. Houve uma redução importante no volume de passageiros com a transferência de vôos para Guarulhos" (TRIBUNA DA IMPRENSA).
Mas o problema principal, o tamanho da pista, continuou.
TAM
O diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Carlos Camacho, respondeu, afirmando ao "Estado de S. Paulo" que "os perigos e riscos para operações em Congonhas permanecem: Congonhas vive o contraste de operar aviões grandes em uma pista pequena, de 1.790 metros; a cada mil pousos de aviões grandes com problemas, um pode acabar em acidente".
Um ano após a tragédia com o avião da TAM, laudo da Diretoria de Engenharia da Aeronáutica (Direng) mostrou que "a maxtextura do asfalto do Aeroporto de Congonhas está abaixo do padrão mínimo de segurança: tem em média 0,35 milímetros, quando o mínimo estipulado pela norma IAC 4.302 do extinto DAC é de 0,5 milímetros" ("O Globo").
"Caos aéreo: em Congonhas, o aeroporto mais importante do País, a solução apresentada para diminuir o risco de acidentes era reduzir em 40% os pousos e as decolagens. A redução foi de apenas 20%. O aeroporto segue em seu ritmo frenético, com 36.500 usuários e quase 500 aviões de passageiros pousando e decolando todos os dias, cercado de prédios e casas por todos os lados. A reduzida extensão da pista acabou se agravando. Para criar uma área de escape, encolheu-se em 150 metros cada cabeceira" ("Veja"). E as chuvas não começaram. Quando vierem, pode vir nova tragédia.
Tinha arranjado seis alqueires de terra, conseguiu financiamento agrícola no Banco do Brasil, plantou tudo que dava na região, uma beleza. De repente, chega a notícia: estava preso numa delegacia de São Paulo. José Paulo Freire, o Zé do Pé, fiel aos amigos 24 horas por dia, foi lá.
- O que é que aconteceu?
- Minha roça. Fui plantando, nos seis alqueires, tudo que dava por lá. Um dia, plantei outra coisa, deu azar. Maconha. Um alqueirizinho só.
- Como é que descobriram?
- O diabo dos passarinhos. Os passsarinhos comiam a sementinha, ficavam maluquinhos, num barato, e começavam a voar de costas. A vizinhança nunca tinha visto passarinho voar de costas. A polícia apareceu.
José Paulo Freire achava que a "Esquadrilha da Fumaça" nasceu ali.
Em pane
No mesmo dia em que o saudoso Zé do Pé me contou essa história, em almoço no Padock, em São Paulo, fui a uma assembléia do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Saí assustado e escrevi esse texto, que publiquei aqui, em 26 de março de 1978. Título: "Aeroportos em pane".
Exatamente há 30 anos. Parece que foi ontem e que adivinhei.
1 - "O Brasil tem uma das maiores redes aéreas do mundo. Todos sabem. A aviação brasileira é uma das mais adiantadas do mundo. Todos sabem. O Brasil utiliza os mais modernos aviões do mundo. Todos sabem.
Mas não sei se vocês sabem que os aeroportos brasileiros são dos piores do mundo. Com alguns problemas graves. Tão graves que, a qualquer instante, podem transformar-se em gravíssimos. E vai ser tarde para chorar.
2 - Há uma regra mundial básica para aeroporto: jato só pode operar em aeroporto de mais de 2 mil metros. Mesmo jato menor, o Lear-Jet e o Boeing-737-200. Pois o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, encravado no coração da cidade imensa, tem exatamente 1.738 metros de pista. A segunda pista tem 1.300 metros.
Congonhas
3 - E no entanto em Congonhas estão descendo, todos os dias, até os novos Airbus, aviões enormes, alguns de mais de 200 passageiros, que exigem normalmente pistas mínimas de além de 2.200 metros.
Já nem cito o da Pampulha, em Belo Horizonte. Esse é hors-concours. Os pilotos sabem que é o pior do País. E continua funcionando, cada dia com mais aviões. (Foi o único realmente enxugado. Para Confins.)
4 - Não basta o Brasil comprar sempre novos aviões, reequipar suas empresas e aumentar dia a dia o padrão de seus serviços aéreos. Também não basta o aeronauta brasileiro, pilotos e comissários, ser considerado entre os mais preparados e eficientes da aviação mundial.
Avião não é passarinho, que voa do galho e desce na grama. E muito menos aterrissa de costas. Avião precisa de aeroporto. E os aeroportos brasileiros estão em pane. Precisam de socorro. Enquanto é tempo".
Jobim
Hoje (30 anos depois de escrever essa coluna), já faz um ano que o Airbus da TAM não freou e explodiu no minúsculo aeroporto de Congonhas, matando 199 pessoas. Não agiram enquanto era tempo.
E não querem agir agora. Anteontem, o ministro da Defesa Nelson Jobim deu inacreditáveis, levianas e irresponsáveis declarações:
"O aeroporto de Congonhas vive atualmente uma situação de segurança absoluta (sic). A situação de segurança em Congonhas é absoluta. Reduzimos de 48 para 34 os pousos e decolagens a cada hora: 30 para a aviação comercial e 4 para a aviação geral, que são os táxis aéreos. Houve uma redução importante no volume de passageiros com a transferência de vôos para Guarulhos" (TRIBUNA DA IMPRENSA).
Mas o problema principal, o tamanho da pista, continuou.
TAM
O diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Carlos Camacho, respondeu, afirmando ao "Estado de S. Paulo" que "os perigos e riscos para operações em Congonhas permanecem: Congonhas vive o contraste de operar aviões grandes em uma pista pequena, de 1.790 metros; a cada mil pousos de aviões grandes com problemas, um pode acabar em acidente".
Um ano após a tragédia com o avião da TAM, laudo da Diretoria de Engenharia da Aeronáutica (Direng) mostrou que "a maxtextura do asfalto do Aeroporto de Congonhas está abaixo do padrão mínimo de segurança: tem em média 0,35 milímetros, quando o mínimo estipulado pela norma IAC 4.302 do extinto DAC é de 0,5 milímetros" ("O Globo").
"Caos aéreo: em Congonhas, o aeroporto mais importante do País, a solução apresentada para diminuir o risco de acidentes era reduzir em 40% os pousos e as decolagens. A redução foi de apenas 20%. O aeroporto segue em seu ritmo frenético, com 36.500 usuários e quase 500 aviões de passageiros pousando e decolando todos os dias, cercado de prédios e casas por todos os lados. A reduzida extensão da pista acabou se agravando. Para criar uma área de escape, encolheu-se em 150 metros cada cabeceira" ("Veja"). E as chuvas não começaram. Quando vierem, pode vir nova tragédia.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Nunca houve um ministro como Gilmar Mendes (Pedro do Coutto - Tribuna da Imprensa)
Foram absolutamente desastradas, despropositadas, de uma grosseria incrível, as declarações do ministro Gilmar Mendes contra o ministro Tarso Genro, apenas porque este defendeu a ação da Polícia Federal contra o banqueiro Daniel Dantas e sustentou que será muito difícil o controlador do Opportunity provar sua inocência. Tarso Genro não se referiu ao presidente do Supremo Tribunal Federal.
Mas surpreendentemente suas palavras incomodaram tanto que Gilmar Mendes, em resposta inusitada ao que não lhe foi imputado, disse que o titular da Justiça não tem competência para decidir inquéritos, muito menos prisão preventiva. Não cabe ao ministro da Justiça julgar, acrescentou Mendes.
Francamente, em toda a história do Supremo Tribunal Federal nunca houve um juiz como Gilmar Mendes. Ele desfocou totalmente a questão colocada por Tarso Genro. Este não quis julgar ninguém, tampouco decretar prisão preventiva alguma. Quis somente defender a ação da Polícia Federal. Não entrou no mérito da prisão preventiva. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, Gilmar Mendes não tem razão em dizer que Tarso Genro não tem competência para decidir inquéritos. Tem sim. Tanto tem que a Polícia Federal lhe é diretamente subordinada. Em caso de dúvida, terá que decidir. Um presidente do Supremo não pode desconhecer matéria tão primária. Em segundo lugar, Tarso Genro não se referiu à prisão preventiva de Daniel Dantas.
Referiu-se ao julgamento final da questão. Por que isso teria irritado tanto Gilmar Mendes? Não se compreende. Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus a Dantas. Não julgou o processo contra ele. É claro. Não o absolveu. Não entrou no mérito do problema. Nem poderia. Ele unicamente achou inadequadas as prisões preventivas estabelecidas pelo juiz Fausto de Sanctis.
A impressão que dá é de que Gilmar Mendes caiu numa cilada armada por Tarso Genro. Neste caso, nesta hipótese, seu comportamento foi infantil demais. Tomado de fúria, não guardou a isenção e a serenidade, muito menos a distância que um ministro do STF deve manter, não só em relação ao caso Dantas-Naji Nahas-Celso Pita, mas em relação a tudo. Não levou em conta a majestade do cargo que ocupa. Enquanto isso, em São Paulo, na segunda-feira, juízes, promotores e procuradores reuniram-se em torno do juiz Fausto de Sanctis, para prestigiar suas decisões e, com isso, diretamente, manifestarem-se contra Gilmar Mendes.
Criou-se no País uma atmosfera efetivamente contrária ao presidente do Supremo. A impressão deixada por Mendes junto à opinião pública, sem a qual ninguém consegue exercer nada de positivo, é a de que ele, Mendes, considera antecipadamente Daniel Dantas inocente. Isso porque ao defender a liberdade do banqueiro não fez qualquer ressalva quanto ao julgamento definitivo que inevitavelmente terá que ocorrer.
Daniel Dantas, inclusive, como todos tomaram conhecimento, é acusado também de tentativa de suborno do delegado Protógenes Queiroz. Só parte para tentativa de suborno quem, tacitamente, se considera culpado. Agravando o panorama para o ministro Gilmar Mendes, seu ataque a Tarso Genro foi publicado no mesmo dia em que a imprensa revelou que o homem de confiança de Dantas, Humberto Braz, que se encontrava oculto, decidiu entregar-se à Polícia Federal. Há um filme gravado sobre sua atuação na proposta de suborno. Daniel
Dantas está profundamente complicado em toda a trama. Gilmar Mendes, na minha impressão, deixou-se levar pela emoção demasiada e foi tragado por um redemoinho de contradições. Não desempenhou um papel público à altura do posto que ocupa e exerce. Afinal de contas, ele é o atual presidente da Corte Suprema. Deverá afastar-se, até em benefício próprio, pois, enquanto permanecer, estará alimentando uma polêmica que tende a se aprofundar e acirrar cada vez mais.
Na terça-feira também, em artigo na "Folha de S. Paulo", Carlos Heitor Cony focalizou uma denúncia do jurista Dalmo Dallari. O Supremo Tribunal Federal não deve ser presidido por um juiz como Gilmar Mendes. Não demonstrou a devida serenidade para a missão de julgar. Antecipou-se ao processo. O foro de Daniel Dantas não é sequer privilegiado. Tanto não é que a ação contra ele encontra-se nas mãos do juiz Fausto de Sanctis, de primeira instância. Se fosse privilegiado, seus advogados já teriam desqualificado a decisão original de prisão preventiva no Tribunal Regional Federal de São Paulo, não havendo necessidade de recorrer ao STF.
O caso Daniel Dantas é extremamente complicado. Tão complicado que o jornal "Valor" publica, em sua edição também de 15 de julho, que a Comissão de Valores Mobiliários decidiu restringir a atuação de sociedades anônimas brasileiras que têm sedes em paraísos fiscais e operam na Bolsa de Valores de São Paulo. Tais empresas caracterizam-se como internacionais, porém seus ativos são na realidade brasileiros.
Na falsa qualidade, beneficiam-se dos incentivos financeiros existentes para aplicações no mercado acionário. Qual mercado acionário? O de Nova York? O de Londres? Não. O mercado brasileiro, que gira na Bovespa. Pela decisão da CVM, pode-se avaliar a torrente de questionamentos que vem por aí. Vem tarde. Mas antes tarde do que nunca.
Mas surpreendentemente suas palavras incomodaram tanto que Gilmar Mendes, em resposta inusitada ao que não lhe foi imputado, disse que o titular da Justiça não tem competência para decidir inquéritos, muito menos prisão preventiva. Não cabe ao ministro da Justiça julgar, acrescentou Mendes.
Francamente, em toda a história do Supremo Tribunal Federal nunca houve um juiz como Gilmar Mendes. Ele desfocou totalmente a questão colocada por Tarso Genro. Este não quis julgar ninguém, tampouco decretar prisão preventiva alguma. Quis somente defender a ação da Polícia Federal. Não entrou no mérito da prisão preventiva. Vamos por partes.
Em primeiro lugar, Gilmar Mendes não tem razão em dizer que Tarso Genro não tem competência para decidir inquéritos. Tem sim. Tanto tem que a Polícia Federal lhe é diretamente subordinada. Em caso de dúvida, terá que decidir. Um presidente do Supremo não pode desconhecer matéria tão primária. Em segundo lugar, Tarso Genro não se referiu à prisão preventiva de Daniel Dantas.
Referiu-se ao julgamento final da questão. Por que isso teria irritado tanto Gilmar Mendes? Não se compreende. Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus a Dantas. Não julgou o processo contra ele. É claro. Não o absolveu. Não entrou no mérito do problema. Nem poderia. Ele unicamente achou inadequadas as prisões preventivas estabelecidas pelo juiz Fausto de Sanctis.
A impressão que dá é de que Gilmar Mendes caiu numa cilada armada por Tarso Genro. Neste caso, nesta hipótese, seu comportamento foi infantil demais. Tomado de fúria, não guardou a isenção e a serenidade, muito menos a distância que um ministro do STF deve manter, não só em relação ao caso Dantas-Naji Nahas-Celso Pita, mas em relação a tudo. Não levou em conta a majestade do cargo que ocupa. Enquanto isso, em São Paulo, na segunda-feira, juízes, promotores e procuradores reuniram-se em torno do juiz Fausto de Sanctis, para prestigiar suas decisões e, com isso, diretamente, manifestarem-se contra Gilmar Mendes.
Criou-se no País uma atmosfera efetivamente contrária ao presidente do Supremo. A impressão deixada por Mendes junto à opinião pública, sem a qual ninguém consegue exercer nada de positivo, é a de que ele, Mendes, considera antecipadamente Daniel Dantas inocente. Isso porque ao defender a liberdade do banqueiro não fez qualquer ressalva quanto ao julgamento definitivo que inevitavelmente terá que ocorrer.
Daniel Dantas, inclusive, como todos tomaram conhecimento, é acusado também de tentativa de suborno do delegado Protógenes Queiroz. Só parte para tentativa de suborno quem, tacitamente, se considera culpado. Agravando o panorama para o ministro Gilmar Mendes, seu ataque a Tarso Genro foi publicado no mesmo dia em que a imprensa revelou que o homem de confiança de Dantas, Humberto Braz, que se encontrava oculto, decidiu entregar-se à Polícia Federal. Há um filme gravado sobre sua atuação na proposta de suborno. Daniel
Dantas está profundamente complicado em toda a trama. Gilmar Mendes, na minha impressão, deixou-se levar pela emoção demasiada e foi tragado por um redemoinho de contradições. Não desempenhou um papel público à altura do posto que ocupa e exerce. Afinal de contas, ele é o atual presidente da Corte Suprema. Deverá afastar-se, até em benefício próprio, pois, enquanto permanecer, estará alimentando uma polêmica que tende a se aprofundar e acirrar cada vez mais.
Na terça-feira também, em artigo na "Folha de S. Paulo", Carlos Heitor Cony focalizou uma denúncia do jurista Dalmo Dallari. O Supremo Tribunal Federal não deve ser presidido por um juiz como Gilmar Mendes. Não demonstrou a devida serenidade para a missão de julgar. Antecipou-se ao processo. O foro de Daniel Dantas não é sequer privilegiado. Tanto não é que a ação contra ele encontra-se nas mãos do juiz Fausto de Sanctis, de primeira instância. Se fosse privilegiado, seus advogados já teriam desqualificado a decisão original de prisão preventiva no Tribunal Regional Federal de São Paulo, não havendo necessidade de recorrer ao STF.
O caso Daniel Dantas é extremamente complicado. Tão complicado que o jornal "Valor" publica, em sua edição também de 15 de julho, que a Comissão de Valores Mobiliários decidiu restringir a atuação de sociedades anônimas brasileiras que têm sedes em paraísos fiscais e operam na Bolsa de Valores de São Paulo. Tais empresas caracterizam-se como internacionais, porém seus ativos são na realidade brasileiros.
Na falsa qualidade, beneficiam-se dos incentivos financeiros existentes para aplicações no mercado acionário. Qual mercado acionário? O de Nova York? O de Londres? Não. O mercado brasileiro, que gira na Bovespa. Pela decisão da CVM, pode-se avaliar a torrente de questionamentos que vem por aí. Vem tarde. Mas antes tarde do que nunca.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Aos 80 anos, a inflação reaviva a ambição de Delfim (Helio Fernandes)
Ministro em 3 "governos", embaixador em outro, não foi governador ou presidente
Delfim Netto, 12 anos e meio senhor da economia brasileira (com os "presidentes" Costa e Silva, Medici e João Figueiredo), não tendo mais acesso fácil a Lula, manda recado a ele pelo jornal.
Cita e transcreve Paul Volker, um dos seus ídolos na economia dos Estados Unidos. Principalmente nos tempos de inflação interna, quando o país tinha que usar o dólar verdadeiro, consagrado em 1944 em Bretton Woods, com a ajuda generosa (para os dois lados) do economista inglês, John Maynard Keynes.
O ex-poderoso ministro quer aparecer como campeão do combate à inflação. Não só porque essa seria uma glória da qual está precisando, mas também porque se vingaria dos empresários de São Paulo. Ninguém ajudou mais os empresários paulistas, principalmente banqueiros e "trabalhadores financeiros", do que Delfim Netto, sempre que era ministro. O único "presidente" que tinha horror a ele, Ernesto Geisel, não queria que fizesse parte do seu governo.
Mas um acidente de percurso, provocado por esses mesmos empresários, obrigou Ernesto Geisel a fazer de Delfim Netto embaixador na França. Motivo: o "governador" de SP, escolhido e nomeado por Geisel, se queixou a ele: "Presidente, não posso governar com Delfim em SP. Nas reuniões da Fiesp, ninguém fala comigo, todos ficam girando em volta de Delfim". Pragmático, sem fé e sem convicção, Geisel perguntou, "o que você quer que eu faça?". O "governador", rapidíssimo: "Por favor, mande ele para o exterior". E Delfim foi feito embaixador na França.
De 1986 em diante, Delfim foi feito deputado votadíssimo para a Câmara Federal. Só foi derrotado, a primeira vez na vida, 20 anos depois, em 2006. Mudou de partido, foi para o PMDB, os empresários se vingaram, não queriam que entrasse nesse partido, não mandaram votar nele. Eis Delfim Netto sem mandato.
Delfim esconde muita coisa que fez na vida, incluindo o financiamento colossal para a Ponte Rio-Niterói. Mas não pode esconder a frase genial de Medici (ditada para ele pelo brilhante então coronel Otavio Costa): "A economia vai bem, mas o povo vai mal". Medici nunca percebeu o que estava dizendo, mas também jamais alguém lhe "soprou" nada mais importante.
(Quase a mesma coisa dita pelo general-presidente Eisenhower ao deixar o governo em 1960: "O mundo é dominado pelo complexo industrial militar". Também genial, inspiração do seu "vice timoneiro" de 8 anos, Richard Nixon, que acabou injustiçado).
Delfim cita o que sabe que não atinge pessoalmente o presidente Lula, coloca bem no alto o que pode criar problemas para Mantega e Meirelles. Apesar de toda a ambição, Delfim, que chegou muito mais longe do que devia, jamais será presidente. Mas fazer parte da equipe econômica num dos lugares chaves (apenas dois) tem certeza de que não é absurdo.
Diz que "a inflação nos EUA chegou a incríveis 14% ao ano, com os juros em 21%". Não dá uma palavra sobre o Japão, com juro ZERO e nenhuma inflação. Não fala do governo Juscelino, "pai e mãe da inflação moderna", com a maluquice de construir uma capital com todos os materiais (até água) transportados de avião.
Não faz a menor referência aos juros de FHC, que chegaram a espantosos 48 por cento ao ano. Mas aí por um fator pouco conhecido: os economistas que trabalhavam no Real estavam perdidos, eles mesmos não sabiam nada do que acontecia. Diante das dificuldades, do medo de "vazamento", do crescimento da inflação e dos juros, a saída foi "comprar mais 4 anos de mandato". Delfim conhece o fato, quem sabe não esteja insinuando a Lula "que com inflação e para combatê-la, o melhor seria o TERCEIRO MANDATO, igual ao SEGUNDO de FHC?".
PS - Delfim Netto é resistente e insistente. Em plena ditadura, o adido do Exército na França redigiu e mandou para o Alto Comando o que se chamou de "Relatório Saraiva", que publiquei com exclusividade.
PS 2 - Depois de muitas reuniões, apesar do estarrecimento com as denúncias provadas e comprovadas, o Exército tinha que decidir entre um coronel brilhante e um civil ambicioso. Salvou Delfim, que ficou cada vez mais poderoso. E voltaria novamente ao Ministério da Fazenda. Que República. Mas os crimes financeiros praticados por Delfim, não P-R-E-S-C-R-E-V-E-M.
Celio Borja
Brilhante jurista da Souza Cruz, artífice da prorrogação do mandato de Castelo Branco. Faz 80 anos, acontece.
Tasso Jereissati, numa declaração que "esqueceu" de fazer, quando substituiu o presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, envolvido em escândalos colossais de desvio de dinheiros públicos: "Corremos o risco de sermos mal interpretados pela imprensa, de parecermos estar defendendo tubarões". A frase não tem que estar na condicional, senador, é efetiva e realista. O que faz um senador defender um falcatrueiro acusado há 20 anos?
Não há suspeita, dúvida ou informe. É apenas informação: todo o dinheiro enviado por Dantas ou pelo Opportunity representa crime financeiro. E lógico, com o rótulo "lavagem de dinheiro".
Antigamente, para enviar dinheiro para o exterior, havia complicadíssima operação. Agora, com o avanço da tecnologia, basta apertar um botão. E tudo está programado, o dinheiro fica um dia em cada paraíso fiscal, de acordo com o estabelecido.
E uma parte desse dinheiro "volta" como investimento de estrangeiros, pessoa física ou de multinacionais. Facílimo.
Os 97 que seriam nomeados sem concurso para cargos de 10 mil por mês serão fulminados pelo plenário do Senado. Alguns já eram até conhecidos, esperavam o 1º de agosto. Que não existirá.
O advogado milionário do cliente bilionário (Daniel Dantas) é chamado para defender "causas volumosas, sempre com desvio de dinheiro público, lavagem, formação de quadrilha". Tem vasta experiência.
E o "quadrilheiro" Daniel Dantas provoca enormes gargalhadas ao dizer: "Estou sendo preso por perseguição política". Se isso fosse verdade, como justificar tanto tempo em liberdade?
Naji Nahas e Celso Pitta não esperavam ser soltos, o prestígio deles não é tão grande quanto o de Daniel Dantas. Foram favorecidos por um ato de REPRESÁLIA do ministro Gilmar Mendes.
Celio Borja, diretor da Souza Cruz, faz hoje 80 anos, não é o seu grande momento. Esse foi quando votou a favor da PRORROGAÇÃO do mandato de Castelo Branco. Ficou empatado. Era a liquidação de Carlos Lacerda, que tanto ajudou sua carreira.
Há muito tempo venho alertando sobre a COMPRA de terras no Brasil. Fiz a advertência: durante muitos anos acreditamos que a Amazônia seria invadida por tropas, logicamente estrangeiras, para o domínio.
Com a licença e a licenciosidade para a aquisição de terras, mudei o tom. Teremos que responder a tribunais de vários países, pelo fato do Brasil ter VENDIDO terras, recebido o dinheiro e não ter "honrado" o compromisso. Que República.
Se é verdade que o "prefeito" Kassab disse que "eleição só começa depois do horário da novela", está mais perdido do que se imaginava. Ele está em terceiro, porque só existem três candidatos.
Inacreditável mas rigorosamente verdadeiro: em Salvador, 4 candidatos têm chance de irem para o segundo turno. ACM-neto, Walter Pinheiro, Antonio Imbassahy e João Henrique estão no mesmo patamar.
No governo, ninguém consegue descobrir as atividades do ministro Miguel Jorge. Vindo do setor automobilístico, parece que lá era mais eficiente.
A campanha pela eleição de Luiz Paulo Horta na vaga de Zelia Gattai está seguindo em alta velocidade. Fabio Lucas, paulista, já perdeu os votos de Ligia Fagundes Telles e João de Scatimburgo, paulistas como ele.
Alberto Costa e Silva não votará mais em Fabio Lucas, o que libera o voto de Murilo de Carvalho. Garantiram a próxima vaga para Cleonice Barardinelli, e ganhar o voto de Afonsinho Arinos e mais um outro.
O medo: que no terceiro escritínio despejem votos em Ziraldo ou Antonio Torres, não elegendo ninguém. Pode ser.
A greve dos carteiros atingiu hoje quatorze dias sem que o governo conseguisse solucionar o problema. Causa: como em tantas outras greves, está na falta de uma política salarial e trabalhista no País.
As relações entre capital e trabalho foram explodidas pelos ares pelo ex-presidente FHC, e seus alicerces ainda não foram reconstruídos por Lula. Resultado: paralisações de serviços essenciais que prejudicam a todos e a economia do País. O Procon limitou-se a aconselhar os habitantes do Rio a tomarem a iniciativa de buscar suas contas.
Absurdo total. No Rio, existem 1 milhão e 300 mil domicílios. As contas são de luz, telefone, gás, aluguel, condomínio, IPTU, assinatura de TV a cabo. O movimento diário é enorme.
Ia esquecendo os planos de saúde. O resultado é que, quando a greve terminar, todas as contas virão com juros e ameaças de cortes.
Não tem sentido. Os contribuintes é que vão pagar as diferenças. O caso dos planos de saúde exige mais atenção. Porque eles estão doidos para se livrarem de seus associados mais velhos.
Podem encontrar pretexto para cancelar planos pagos há mais de 30 anos. Vale a pena pedir a atenção da Agência Nacional de Saúde.
XXX
Ainda não cumprido um terço do brasileirão, Flamengo e Vasco botaram 64 mil pagantes no Maracanã. Jogo razoável. O novo presidente, Roberto Dinamite, que deu clima de democracia ao Vasco, convidou o ídolo adversário, Zico, para assistir ao jogo ao seu lado, Zico aceitou, lógico.
Marcio Braga soube, chegou cedo, sentou ao lado do presidente do Vasco, que ficou em visível constrangimento. Marcio Braga não foi jogador, não é ídolo, nem convidado. Que República, até no futebol.
XXX
O novo técnico do Botafogo, Ney Franco, assumiu e foi logo dizendo: "Vamos para a Libertadores". Vencia fácil por 2 a 0, perdeu gols "impossíveis", o Santos empatou e quase vencia. O Cuca saído do Botafogo e depois de 8 jogos sem vitória retumba: "Vamos para o título e para a Libertadores".
XXX
O Brasil que já se julga superpotência (devia ser há 100 anos), no futebol não percebeu. Caio Junior assumiu no Flamengo, já recebeu "proposta irrecusável" do Qatar. Se é irrecusável, tem que aceitar. Com que dinheiro?
Delfim Netto, 12 anos e meio senhor da economia brasileira (com os "presidentes" Costa e Silva, Medici e João Figueiredo), não tendo mais acesso fácil a Lula, manda recado a ele pelo jornal.
Cita e transcreve Paul Volker, um dos seus ídolos na economia dos Estados Unidos. Principalmente nos tempos de inflação interna, quando o país tinha que usar o dólar verdadeiro, consagrado em 1944 em Bretton Woods, com a ajuda generosa (para os dois lados) do economista inglês, John Maynard Keynes.
O ex-poderoso ministro quer aparecer como campeão do combate à inflação. Não só porque essa seria uma glória da qual está precisando, mas também porque se vingaria dos empresários de São Paulo. Ninguém ajudou mais os empresários paulistas, principalmente banqueiros e "trabalhadores financeiros", do que Delfim Netto, sempre que era ministro. O único "presidente" que tinha horror a ele, Ernesto Geisel, não queria que fizesse parte do seu governo.
Mas um acidente de percurso, provocado por esses mesmos empresários, obrigou Ernesto Geisel a fazer de Delfim Netto embaixador na França. Motivo: o "governador" de SP, escolhido e nomeado por Geisel, se queixou a ele: "Presidente, não posso governar com Delfim em SP. Nas reuniões da Fiesp, ninguém fala comigo, todos ficam girando em volta de Delfim". Pragmático, sem fé e sem convicção, Geisel perguntou, "o que você quer que eu faça?". O "governador", rapidíssimo: "Por favor, mande ele para o exterior". E Delfim foi feito embaixador na França.
De 1986 em diante, Delfim foi feito deputado votadíssimo para a Câmara Federal. Só foi derrotado, a primeira vez na vida, 20 anos depois, em 2006. Mudou de partido, foi para o PMDB, os empresários se vingaram, não queriam que entrasse nesse partido, não mandaram votar nele. Eis Delfim Netto sem mandato.
Delfim esconde muita coisa que fez na vida, incluindo o financiamento colossal para a Ponte Rio-Niterói. Mas não pode esconder a frase genial de Medici (ditada para ele pelo brilhante então coronel Otavio Costa): "A economia vai bem, mas o povo vai mal". Medici nunca percebeu o que estava dizendo, mas também jamais alguém lhe "soprou" nada mais importante.
(Quase a mesma coisa dita pelo general-presidente Eisenhower ao deixar o governo em 1960: "O mundo é dominado pelo complexo industrial militar". Também genial, inspiração do seu "vice timoneiro" de 8 anos, Richard Nixon, que acabou injustiçado).
Delfim cita o que sabe que não atinge pessoalmente o presidente Lula, coloca bem no alto o que pode criar problemas para Mantega e Meirelles. Apesar de toda a ambição, Delfim, que chegou muito mais longe do que devia, jamais será presidente. Mas fazer parte da equipe econômica num dos lugares chaves (apenas dois) tem certeza de que não é absurdo.
Diz que "a inflação nos EUA chegou a incríveis 14% ao ano, com os juros em 21%". Não dá uma palavra sobre o Japão, com juro ZERO e nenhuma inflação. Não fala do governo Juscelino, "pai e mãe da inflação moderna", com a maluquice de construir uma capital com todos os materiais (até água) transportados de avião.
Não faz a menor referência aos juros de FHC, que chegaram a espantosos 48 por cento ao ano. Mas aí por um fator pouco conhecido: os economistas que trabalhavam no Real estavam perdidos, eles mesmos não sabiam nada do que acontecia. Diante das dificuldades, do medo de "vazamento", do crescimento da inflação e dos juros, a saída foi "comprar mais 4 anos de mandato". Delfim conhece o fato, quem sabe não esteja insinuando a Lula "que com inflação e para combatê-la, o melhor seria o TERCEIRO MANDATO, igual ao SEGUNDO de FHC?".
PS - Delfim Netto é resistente e insistente. Em plena ditadura, o adido do Exército na França redigiu e mandou para o Alto Comando o que se chamou de "Relatório Saraiva", que publiquei com exclusividade.
PS 2 - Depois de muitas reuniões, apesar do estarrecimento com as denúncias provadas e comprovadas, o Exército tinha que decidir entre um coronel brilhante e um civil ambicioso. Salvou Delfim, que ficou cada vez mais poderoso. E voltaria novamente ao Ministério da Fazenda. Que República. Mas os crimes financeiros praticados por Delfim, não P-R-E-S-C-R-E-V-E-M.
Celio Borja
Brilhante jurista da Souza Cruz, artífice da prorrogação do mandato de Castelo Branco. Faz 80 anos, acontece.
Tasso Jereissati, numa declaração que "esqueceu" de fazer, quando substituiu o presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, envolvido em escândalos colossais de desvio de dinheiros públicos: "Corremos o risco de sermos mal interpretados pela imprensa, de parecermos estar defendendo tubarões". A frase não tem que estar na condicional, senador, é efetiva e realista. O que faz um senador defender um falcatrueiro acusado há 20 anos?
Não há suspeita, dúvida ou informe. É apenas informação: todo o dinheiro enviado por Dantas ou pelo Opportunity representa crime financeiro. E lógico, com o rótulo "lavagem de dinheiro".
Antigamente, para enviar dinheiro para o exterior, havia complicadíssima operação. Agora, com o avanço da tecnologia, basta apertar um botão. E tudo está programado, o dinheiro fica um dia em cada paraíso fiscal, de acordo com o estabelecido.
E uma parte desse dinheiro "volta" como investimento de estrangeiros, pessoa física ou de multinacionais. Facílimo.
Os 97 que seriam nomeados sem concurso para cargos de 10 mil por mês serão fulminados pelo plenário do Senado. Alguns já eram até conhecidos, esperavam o 1º de agosto. Que não existirá.
O advogado milionário do cliente bilionário (Daniel Dantas) é chamado para defender "causas volumosas, sempre com desvio de dinheiro público, lavagem, formação de quadrilha". Tem vasta experiência.
E o "quadrilheiro" Daniel Dantas provoca enormes gargalhadas ao dizer: "Estou sendo preso por perseguição política". Se isso fosse verdade, como justificar tanto tempo em liberdade?
Naji Nahas e Celso Pitta não esperavam ser soltos, o prestígio deles não é tão grande quanto o de Daniel Dantas. Foram favorecidos por um ato de REPRESÁLIA do ministro Gilmar Mendes.
Celio Borja, diretor da Souza Cruz, faz hoje 80 anos, não é o seu grande momento. Esse foi quando votou a favor da PRORROGAÇÃO do mandato de Castelo Branco. Ficou empatado. Era a liquidação de Carlos Lacerda, que tanto ajudou sua carreira.
Há muito tempo venho alertando sobre a COMPRA de terras no Brasil. Fiz a advertência: durante muitos anos acreditamos que a Amazônia seria invadida por tropas, logicamente estrangeiras, para o domínio.
Com a licença e a licenciosidade para a aquisição de terras, mudei o tom. Teremos que responder a tribunais de vários países, pelo fato do Brasil ter VENDIDO terras, recebido o dinheiro e não ter "honrado" o compromisso. Que República.
Se é verdade que o "prefeito" Kassab disse que "eleição só começa depois do horário da novela", está mais perdido do que se imaginava. Ele está em terceiro, porque só existem três candidatos.
Inacreditável mas rigorosamente verdadeiro: em Salvador, 4 candidatos têm chance de irem para o segundo turno. ACM-neto, Walter Pinheiro, Antonio Imbassahy e João Henrique estão no mesmo patamar.
No governo, ninguém consegue descobrir as atividades do ministro Miguel Jorge. Vindo do setor automobilístico, parece que lá era mais eficiente.
A campanha pela eleição de Luiz Paulo Horta na vaga de Zelia Gattai está seguindo em alta velocidade. Fabio Lucas, paulista, já perdeu os votos de Ligia Fagundes Telles e João de Scatimburgo, paulistas como ele.
Alberto Costa e Silva não votará mais em Fabio Lucas, o que libera o voto de Murilo de Carvalho. Garantiram a próxima vaga para Cleonice Barardinelli, e ganhar o voto de Afonsinho Arinos e mais um outro.
O medo: que no terceiro escritínio despejem votos em Ziraldo ou Antonio Torres, não elegendo ninguém. Pode ser.
A greve dos carteiros atingiu hoje quatorze dias sem que o governo conseguisse solucionar o problema. Causa: como em tantas outras greves, está na falta de uma política salarial e trabalhista no País.
As relações entre capital e trabalho foram explodidas pelos ares pelo ex-presidente FHC, e seus alicerces ainda não foram reconstruídos por Lula. Resultado: paralisações de serviços essenciais que prejudicam a todos e a economia do País. O Procon limitou-se a aconselhar os habitantes do Rio a tomarem a iniciativa de buscar suas contas.
Absurdo total. No Rio, existem 1 milhão e 300 mil domicílios. As contas são de luz, telefone, gás, aluguel, condomínio, IPTU, assinatura de TV a cabo. O movimento diário é enorme.
Ia esquecendo os planos de saúde. O resultado é que, quando a greve terminar, todas as contas virão com juros e ameaças de cortes.
Não tem sentido. Os contribuintes é que vão pagar as diferenças. O caso dos planos de saúde exige mais atenção. Porque eles estão doidos para se livrarem de seus associados mais velhos.
Podem encontrar pretexto para cancelar planos pagos há mais de 30 anos. Vale a pena pedir a atenção da Agência Nacional de Saúde.
XXX
Ainda não cumprido um terço do brasileirão, Flamengo e Vasco botaram 64 mil pagantes no Maracanã. Jogo razoável. O novo presidente, Roberto Dinamite, que deu clima de democracia ao Vasco, convidou o ídolo adversário, Zico, para assistir ao jogo ao seu lado, Zico aceitou, lógico.
Marcio Braga soube, chegou cedo, sentou ao lado do presidente do Vasco, que ficou em visível constrangimento. Marcio Braga não foi jogador, não é ídolo, nem convidado. Que República, até no futebol.
XXX
O novo técnico do Botafogo, Ney Franco, assumiu e foi logo dizendo: "Vamos para a Libertadores". Vencia fácil por 2 a 0, perdeu gols "impossíveis", o Santos empatou e quase vencia. O Cuca saído do Botafogo e depois de 8 jogos sem vitória retumba: "Vamos para o título e para a Libertadores".
XXX
O Brasil que já se julga superpotência (devia ser há 100 anos), no futebol não percebeu. Caio Junior assumiu no Flamengo, já recebeu "proposta irrecusável" do Qatar. Se é irrecusável, tem que aceitar. Com que dinheiro?
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Gilmar Mendes: "O Supremo sou eu" (Tribuna da Imprensa)
Pode libertar Daniel ou esperar a prisão de Eike Batista
É possível que depois da novela Daniel Dantas surja a novela Eike Batista. Este, que modestamente se declarou "o homem mais rico do Brasil e no futuro o mais rico do mundo", teve a casa e o escritório vasculhados pela polícia com ordem judicial. Ele é acusado de uma porção de crimes financeiros. E será muito difícil justificar o patrimônio de 16 BILHÕES e 500 MILHÕES, alardeado, que palavra, por ele mesmo.
Como é muito esperto e bilionário, estando no exterior, já teria contratado o advogado milionário. E fez um pedido que até o advogado milionário teria achado estranho: "Se eu tiver que ser preso, quero que isso aconteça imediatamente até 31 de julho".
Como o advogado não tivesse entendido, Eike explicou: "Até 31 de julho a liminar será despachada exclusivamente pelo presidente Gilmar Mendes. A partir de 1º de agosto voltam os sorteios para escolher os relatores".
E diante do espanto pela reflexão veloz, concluiu: "Aí pode ir para um ministro que não tenha tanta obsessão por habeas-corpus e eu fique preso indefinidamente".
O presidente Gilmar Mendes disse várias vezes: "Querem confrontar e desmoralizar o Supremo". Ora, o Supremo está em recesso, Gilmar Mendes é presidente por rodízio, e responde eventual e circunstancialmente pelas liminares. Nada mais.
Liminares que podem ser derrubadas pelo plenário a partir de 1º de agosto. E como disse o próprio Daniel Dantas, "muita coisa irá acontecer". Até ser preso outra vez, com o habeas-corpus já redigido e garantido por Gilmar Mendes.
Este, se quisesse, poderia citar em francês, que conhece em profundidade: "O Estado (Supremo) sou eu".
Em todo esse tortuoso episódio da prisão e libertação de Daniel Dantas, minha surpresa total vai para o advogado milionário. Como conseguiu ficar famoso e cheio de clientes com o primarismo exibido?
Falar em nazismo, referendar a afirmação de "perseguição política", assinar um texto que não seria aprovado em escola primária? Seu cliente é criminoso financeiro há mais de 20 anos, quem desconhece?
Há 20 anos Daniel Dantas, apesar da concorrência, é o maior falcatrueiro de plantão. Mas surpreendentemente tem "espaço cativo" entre famosos colunistas e até em arrogantes jornalões. Não se passa um dia sem que surjam notícias plantadas por ele.
Agora, cotistas do Opportunity sacaram 1 bilhão, Daniel Dantas ficou em situação financeira dificílima. Os jornalões deram notinhas sobre o fato, esconderam o mais que puderam.
Não importa o montante dos ativos de uma instituição e sim a sua liquidez. Perder 1 bilhão e poder recompor (quem irá investir ou manter investimentos no Opportunity?) será praticamente impossível para um "banqueiro criminoso?".
Daniel Dantas acredita que pode recorrer ao Banco Central, sob a alegação de que muita gente perderia dinheiro. Dantas é um novo Cacciola e ganhará um novo Proer?
Desculpem, estou escrevendo no domingo, às 7 horas da noite. Não sei se Daniel Dantas está preso ou solto. O ministro Gilmar Mendes bravamente espera no gabinete. Reprovado pela Associação dos Juízes Federais e do Ministério Público, se julga um vencedor.
Espera o julgamento do Conselho de Justiça, presidido isenta e heroicamente por ele mesmo. Esse Conselho irá julgar mesmo o quê? Ninguém sabe.
PS - Às 7 da noite, pressionado pela redação e pela oficina, tenho que terminar. Dantas continua em liberdade, Gilmar tem que rasgar o habeas-corpus já redigido para o caso de nova prisão. A esperança de Gilmar, agora, se volta para Eike Batista. O auto-apregoado homem mais rico do Brasil pode ser solto por Gilmar.
Ingrid Betancourt
Saiu da prisão, chamou logo Uribe de herói, com direito ao terceiro mandato. Viu que era burrice, chamou-o de vilão.
Em maio noticiei aqui: o ministro Ayres Brito, relator no Supremo da regulamentação ou demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol em áreas contínuas, terminara o exame da questão. Era 4 de maio, entregou ao presidente Gilmar Mendes pedindo pauta. Ficou mais ou menos garantido que seria votada em 21 ou 22 de maio. Com a publicação, que não podia ser desmentida, começou a pressão para a não votação.
Como os interesses são colossais, começou a pressão, dispersão e contrapressão. Em cima do próprio presidente da República e do Supremo. Resultado: não tenho a menor certeza sobre o julgamento.
Não sobre o mérito. A vantagem dos que defendem a demarcação em áreas descontínuas é muito grande. Todos sabem disso. Assim, a pressão é simplesmente para não votar, impedir a derrota.
A televisão mostrou a polícia apreendendo documentos na casa de Eike Batista. Ficou visível que ele está construindo, I-L-E-G-A-L-M-E-N-T-E, OUTRA CASA em cima da casa. Como ali é "zona unifamiliar", a obra deveria ser embargada. Quem faria?
O advogado milionário do cliente bilionário também está territorialmente irregular. Na rua onde mora, os cidadãos não podem passar, sua genialidade tomou conta dos espaços. Os nazistas foram tomando a Europa da mesma maneira.
"O Globo" é o jornal de maior peso do Brasil. No sábado tinha 180 páginas. Mas a influência não corresponde ao peso. Em 1963, na Primeira, publicou o editorial: "João Goulart, um estadista".
Mas logo depois, em 1964, ajudava a derrubar o mesmo presidente estadista. Também, como desistir? Estava acompanhado pelo embaixador Lincoln Gordon, comandante em chefe (apesar de civil) da operação "Brother Sam".
Ricardo Teixeira, lúcido e corrupto, ficou apavorado com a prisão de Celso Pitta, Naji Nahas e principalmente Daniel Dantas. Andou fazendo muitas perguntas, Daniel Dantas era seu ídolo.
Dantas esteve preso (menos de 3 dias) e Ricardo Teixeira livre, acusados pelos mesmos crimes financeiros. 1 - Lavagem de dinheiro. 2 - Sonegação. 3 - Envio ilegal para o exterior. 4 - Fraudes financeiras. 5 - Formação de quadrilha. Tudo isso apurado em CPI, de enorme repercussão.
Daniel Dantas é tão mau caráter que há alguns anos chamou vários jornalistas para fazerem um portal na internet. Nome do portal: O (de Opportunity).ponto.com.br
Mas não pagou a ninguém, a partir do primeiro mês. Lógico, pararam tudo. Interessante: a redação desse portal ficava ao lado da Academia. O que é surpreendente, Dantas tem horror a livro.
No início da campanha, os três únicos candidatos a prefeito de SP estão no limiar da "infidelidade". Dona Marta apareceu com o ex-marido. Kassab, com o governador, adversário e de outro partido. E Alckmin, sozinho, torpedeado pelo governador da sua legenda.
Cesar Maia mandou autuar todos os postos com gasolina adulterada. Corre o risco de ser atingido por causa das "promessas adulteradas". E ter gasto mais de 500 milhões com a inútil "Cidade da Música".
Quem mais trabalha hoje, no Senado, é Tião Viana. Quer dizer: trabalha para ele mesmo, quer ser presidente do Senado. Não será.
Quase 2 anos depois do desastre do avião da Gol, que matou 155 pessoas, ninguém recebeu ainda nem dinheiro nem atenção da empresa.
Os parentes das vítimas podem ficar certos, não receberão nada. Acontecerá exatamente o que acontece com os parentes dos passageiros da TAM mortos no desastre de 1999. Vão se completar 10 anos e nada. Isso devia ser prioridade do governo e da Justiça.
Engraçadíssima a nota oficial da TV Globo: "Dar e levar furos é coisa normal no jornalismo. Desmerecer furos alheios é coisa que bons jornalistas deveriam evitar". Ha! Ha! Ha!
Na prisão surpreendente de Paulo Maluf e o filho, num espetacular furo de jornalismo, Ha! Ha! Ha!, a TV Globo estava no lugar onde o ex-prefeito foi preso, e no local para onde ele foi levado com o filho. Não é furo e sim adivinhação.
No caso da prisão de Daniel Dantas, novamente a TV Globo foi iluminada pelo Poder da adivinhação. Ouviu vozes do alto, descobriu onde ia ser preso e para onde seria levado preso.
Na segunda prisão de Daniel Dantas, sabia até mais do que o advogado milionário do cliente bilionário. Estava dando entrevista coletiva, recebeu recado da Globo, largou tudo.
Quanto à questão da corrupção ativa, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, desvio de dinheiro público, ninguém conhece mais do que ele. Os exemplos estão em casa.
XXX
O jornal da Globonews "Em cima da hora" é uma repetição descuidada. Na sexta-feira, 14 horas, disseram: "Nelson Jobim, ministro da Justiça". Novamente o mesmo equívoco às 15 horas, às 16, aí não vi mais. A essa hora da tarde não tem ninguém acordado?
Esse programa é uma cópia do que eu fazia quando fui diretor da Rádio Mauá. Criei o "Noticioso Mauá", que era feito exclusivamente por mim e lido pelo saudoso Sargentelli. A estação ficava no ar 24 horas, e sempre era diferente, mantendo, às vezes, notícias que deviam ser repetidas. De 11 da noite às 7 da manhã, eram jornais diferentes, que eu e o Sargentelli gravávamos.
XXX
Quando eu era garoto, minha avó dizia: "Banana prende, mamão solta". Depois virou peça de Maria Clara Machado, com esse título. E minha avó nem sabia o que era Judiciário.
XXX
Com a sorte (e não competência) que teve contra o Goiás e o Vitória, o Fluminense pode até chegar à Sul-Americana.
XXX
E o Ney Franco, que garantiu "iremos à Libertadores"?
É possível que depois da novela Daniel Dantas surja a novela Eike Batista. Este, que modestamente se declarou "o homem mais rico do Brasil e no futuro o mais rico do mundo", teve a casa e o escritório vasculhados pela polícia com ordem judicial. Ele é acusado de uma porção de crimes financeiros. E será muito difícil justificar o patrimônio de 16 BILHÕES e 500 MILHÕES, alardeado, que palavra, por ele mesmo.
Como é muito esperto e bilionário, estando no exterior, já teria contratado o advogado milionário. E fez um pedido que até o advogado milionário teria achado estranho: "Se eu tiver que ser preso, quero que isso aconteça imediatamente até 31 de julho".
Como o advogado não tivesse entendido, Eike explicou: "Até 31 de julho a liminar será despachada exclusivamente pelo presidente Gilmar Mendes. A partir de 1º de agosto voltam os sorteios para escolher os relatores".
E diante do espanto pela reflexão veloz, concluiu: "Aí pode ir para um ministro que não tenha tanta obsessão por habeas-corpus e eu fique preso indefinidamente".
O presidente Gilmar Mendes disse várias vezes: "Querem confrontar e desmoralizar o Supremo". Ora, o Supremo está em recesso, Gilmar Mendes é presidente por rodízio, e responde eventual e circunstancialmente pelas liminares. Nada mais.
Liminares que podem ser derrubadas pelo plenário a partir de 1º de agosto. E como disse o próprio Daniel Dantas, "muita coisa irá acontecer". Até ser preso outra vez, com o habeas-corpus já redigido e garantido por Gilmar Mendes.
Este, se quisesse, poderia citar em francês, que conhece em profundidade: "O Estado (Supremo) sou eu".
Em todo esse tortuoso episódio da prisão e libertação de Daniel Dantas, minha surpresa total vai para o advogado milionário. Como conseguiu ficar famoso e cheio de clientes com o primarismo exibido?
Falar em nazismo, referendar a afirmação de "perseguição política", assinar um texto que não seria aprovado em escola primária? Seu cliente é criminoso financeiro há mais de 20 anos, quem desconhece?
Há 20 anos Daniel Dantas, apesar da concorrência, é o maior falcatrueiro de plantão. Mas surpreendentemente tem "espaço cativo" entre famosos colunistas e até em arrogantes jornalões. Não se passa um dia sem que surjam notícias plantadas por ele.
Agora, cotistas do Opportunity sacaram 1 bilhão, Daniel Dantas ficou em situação financeira dificílima. Os jornalões deram notinhas sobre o fato, esconderam o mais que puderam.
Não importa o montante dos ativos de uma instituição e sim a sua liquidez. Perder 1 bilhão e poder recompor (quem irá investir ou manter investimentos no Opportunity?) será praticamente impossível para um "banqueiro criminoso?".
Daniel Dantas acredita que pode recorrer ao Banco Central, sob a alegação de que muita gente perderia dinheiro. Dantas é um novo Cacciola e ganhará um novo Proer?
Desculpem, estou escrevendo no domingo, às 7 horas da noite. Não sei se Daniel Dantas está preso ou solto. O ministro Gilmar Mendes bravamente espera no gabinete. Reprovado pela Associação dos Juízes Federais e do Ministério Público, se julga um vencedor.
Espera o julgamento do Conselho de Justiça, presidido isenta e heroicamente por ele mesmo. Esse Conselho irá julgar mesmo o quê? Ninguém sabe.
PS - Às 7 da noite, pressionado pela redação e pela oficina, tenho que terminar. Dantas continua em liberdade, Gilmar tem que rasgar o habeas-corpus já redigido para o caso de nova prisão. A esperança de Gilmar, agora, se volta para Eike Batista. O auto-apregoado homem mais rico do Brasil pode ser solto por Gilmar.
Ingrid Betancourt
Saiu da prisão, chamou logo Uribe de herói, com direito ao terceiro mandato. Viu que era burrice, chamou-o de vilão.
Em maio noticiei aqui: o ministro Ayres Brito, relator no Supremo da regulamentação ou demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol em áreas contínuas, terminara o exame da questão. Era 4 de maio, entregou ao presidente Gilmar Mendes pedindo pauta. Ficou mais ou menos garantido que seria votada em 21 ou 22 de maio. Com a publicação, que não podia ser desmentida, começou a pressão para a não votação.
Como os interesses são colossais, começou a pressão, dispersão e contrapressão. Em cima do próprio presidente da República e do Supremo. Resultado: não tenho a menor certeza sobre o julgamento.
Não sobre o mérito. A vantagem dos que defendem a demarcação em áreas descontínuas é muito grande. Todos sabem disso. Assim, a pressão é simplesmente para não votar, impedir a derrota.
A televisão mostrou a polícia apreendendo documentos na casa de Eike Batista. Ficou visível que ele está construindo, I-L-E-G-A-L-M-E-N-T-E, OUTRA CASA em cima da casa. Como ali é "zona unifamiliar", a obra deveria ser embargada. Quem faria?
O advogado milionário do cliente bilionário também está territorialmente irregular. Na rua onde mora, os cidadãos não podem passar, sua genialidade tomou conta dos espaços. Os nazistas foram tomando a Europa da mesma maneira.
"O Globo" é o jornal de maior peso do Brasil. No sábado tinha 180 páginas. Mas a influência não corresponde ao peso. Em 1963, na Primeira, publicou o editorial: "João Goulart, um estadista".
Mas logo depois, em 1964, ajudava a derrubar o mesmo presidente estadista. Também, como desistir? Estava acompanhado pelo embaixador Lincoln Gordon, comandante em chefe (apesar de civil) da operação "Brother Sam".
Ricardo Teixeira, lúcido e corrupto, ficou apavorado com a prisão de Celso Pitta, Naji Nahas e principalmente Daniel Dantas. Andou fazendo muitas perguntas, Daniel Dantas era seu ídolo.
Dantas esteve preso (menos de 3 dias) e Ricardo Teixeira livre, acusados pelos mesmos crimes financeiros. 1 - Lavagem de dinheiro. 2 - Sonegação. 3 - Envio ilegal para o exterior. 4 - Fraudes financeiras. 5 - Formação de quadrilha. Tudo isso apurado em CPI, de enorme repercussão.
Daniel Dantas é tão mau caráter que há alguns anos chamou vários jornalistas para fazerem um portal na internet. Nome do portal: O (de Opportunity).ponto.com.br
Mas não pagou a ninguém, a partir do primeiro mês. Lógico, pararam tudo. Interessante: a redação desse portal ficava ao lado da Academia. O que é surpreendente, Dantas tem horror a livro.
No início da campanha, os três únicos candidatos a prefeito de SP estão no limiar da "infidelidade". Dona Marta apareceu com o ex-marido. Kassab, com o governador, adversário e de outro partido. E Alckmin, sozinho, torpedeado pelo governador da sua legenda.
Cesar Maia mandou autuar todos os postos com gasolina adulterada. Corre o risco de ser atingido por causa das "promessas adulteradas". E ter gasto mais de 500 milhões com a inútil "Cidade da Música".
Quem mais trabalha hoje, no Senado, é Tião Viana. Quer dizer: trabalha para ele mesmo, quer ser presidente do Senado. Não será.
Quase 2 anos depois do desastre do avião da Gol, que matou 155 pessoas, ninguém recebeu ainda nem dinheiro nem atenção da empresa.
Os parentes das vítimas podem ficar certos, não receberão nada. Acontecerá exatamente o que acontece com os parentes dos passageiros da TAM mortos no desastre de 1999. Vão se completar 10 anos e nada. Isso devia ser prioridade do governo e da Justiça.
Engraçadíssima a nota oficial da TV Globo: "Dar e levar furos é coisa normal no jornalismo. Desmerecer furos alheios é coisa que bons jornalistas deveriam evitar". Ha! Ha! Ha!
Na prisão surpreendente de Paulo Maluf e o filho, num espetacular furo de jornalismo, Ha! Ha! Ha!, a TV Globo estava no lugar onde o ex-prefeito foi preso, e no local para onde ele foi levado com o filho. Não é furo e sim adivinhação.
No caso da prisão de Daniel Dantas, novamente a TV Globo foi iluminada pelo Poder da adivinhação. Ouviu vozes do alto, descobriu onde ia ser preso e para onde seria levado preso.
Na segunda prisão de Daniel Dantas, sabia até mais do que o advogado milionário do cliente bilionário. Estava dando entrevista coletiva, recebeu recado da Globo, largou tudo.
Quanto à questão da corrupção ativa, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, desvio de dinheiro público, ninguém conhece mais do que ele. Os exemplos estão em casa.
XXX
O jornal da Globonews "Em cima da hora" é uma repetição descuidada. Na sexta-feira, 14 horas, disseram: "Nelson Jobim, ministro da Justiça". Novamente o mesmo equívoco às 15 horas, às 16, aí não vi mais. A essa hora da tarde não tem ninguém acordado?
Esse programa é uma cópia do que eu fazia quando fui diretor da Rádio Mauá. Criei o "Noticioso Mauá", que era feito exclusivamente por mim e lido pelo saudoso Sargentelli. A estação ficava no ar 24 horas, e sempre era diferente, mantendo, às vezes, notícias que deviam ser repetidas. De 11 da noite às 7 da manhã, eram jornais diferentes, que eu e o Sargentelli gravávamos.
XXX
Quando eu era garoto, minha avó dizia: "Banana prende, mamão solta". Depois virou peça de Maria Clara Machado, com esse título. E minha avó nem sabia o que era Judiciário.
XXX
Com a sorte (e não competência) que teve contra o Goiás e o Vitória, o Fluminense pode até chegar à Sul-Americana.
XXX
E o Ney Franco, que garantiu "iremos à Libertadores"?
sábado, 12 de julho de 2008
Brizola e Lacerda jamais se falaram (Helio Fernandes - Tribuna da Imprensa)
O encontro do governador com João Goulart, ex-presidente
Helio
Inspirado em teu artigo, quero lembrar que o destino colocou Brizola e Lacerda lado a lado na história brasileira; só faltou serem íntimos. Vamos ver: José Brizola, pai de Brizola (que morreu degolado), foi capitão dos provisórios de Leonel Rocha, caudilho maragato, na Revolução Federalista de 1923, que em 1924 deu apoio a Prestes, com homens e armas. Terminada a revolução, já em 1928, os líderes maragatos, tendo à frente Assis Brasil, fundaram o Partido Libertador, e Maurício de Lacerda, pai de Lacerda, foi um dos fundadores. Maurício seguia o ideário maragato, pelo qual o pai de Brizola morreu lutando.
Brizola e Lacerda "terçaram armas" na Câmara de Deputados em 1954, quando eleitos deputados federais: Lacerda começava a jurar a Constituição, quando Brizola interrompeu dizendo que era um juramento falso, porque ele estava pregando o golpe de Estado lá fora. Brizola exibiu a Tribuna da Imprensa, em que Lacerda defendia um estado de emergência; houve estupefação geral (Moniz Bandeira).
Atenciosamente,
Antonio Santos Aquino - Rio de Janeiro
Comentário e revelações
Lembro muito bem esse episódio em 31 de janeiro de 1955. Brizola já havia feito o juramento, quando Lacerda ia fazer o seu foi interrompido de forma agressiva e inédita. Mas não tiveram mais oportunidade de se relacionarem. Brizola foi logo para o Sul, nesse mesmo 1955, em 3 de outubro se elegeu prefeito de Porto Alegre. Não terminou o mandato, em 3 de outubro de 1958 era eleito governador do Estado.
Curiosamente derrotando a UDN e o PSD, que se aliavam sempre contra ele, que disputava pelo PTB. UDN e PSD tinham a intuição ou a certeza de que o homem a derrotar, de qualquer maneira, era Leonel Brizola. E acabaram tendo razão.
Ele e Lacerda continuavam distantes, mais geográfica do que ideológica ou administrativamente. Brizola assumiu o governo em janeiro de 1959, Lacerda em dezembro de 60. Os dois foram excelentes governadores. Em 3 de outubro de 1962, ainda governador do Rio Grande do Sul, Brizola se elegeu deputado federal pela Guanabara, governada por Lacerda.
Deixou o governo em 31 de janeiro de 1963, no mesmo dia assumia na Câmara. A partir daí a História é visível, não precisa ser contada. O golpe de 64 (um contra, o outro a favor) acabaria por destruir os dois, impedindo que chegassem a presidente. Brizola tinha enorme capacidade de "fazer amigos e inimigos". Antes de 64, candidato a presidente com o slogan "cunhado não é parente, Brizola para presidente". Ainda em 1963, tentou um acordo com Jango, que o nomearia ministro da Fazenda e o marechal Lott, ministro da Guerra, com o direito de vigiá-lo no Ministério da Fazenda para "que não fizesse loucura".
João Goulart até que não ficou totalmente contra, pediu tempo. Mas conversou com Roberto Marinho, que acabava de publicar na primeira página de "O Globo" o editorial "João Goulart, um estadista". Com base nisso, estando na companhia do embaixador Lincoln Gordon, e sentado na cama do presidente, disse a ele: "Se você (intimidade total) nomear o Brizola ministro da Fazenda, não termina o mandato". Goulart recuou, não nomeou Brizola e não terminou o mandato. Era melhor ter nomeado, não sei o que aconteceria, mas o Brasil não seria o mesmo.
Quando Carlos Lacerda foi a Montevidéu, levar o "Manifesto da Frente Ampla" para o ex-presidente assinar, conversaram demoradamente. Em determinado momento, Carlos Lacerda disse a João Goulart: "Tenho que ir embora pois vou a Atlântida (onde Brizola estava confinado, por ter feito declarações sobre o golpe de 64 e os generais brasileiros pediram ao Uruguai que o mandassem para o interior, o que foi feito) ver se o governador Brizola quer assinar o Manifesto".
Na volta, Carlos Lacerda me contou, ainda surpreendido: "Quando falei isso, João Goulart empurrou o papel para mim e disse, se esse senhor assinar eu não assino". Perguntei o que ele fez. Resposta: "Disse, presidente, se o senhor não quiser não procuramos a assinatura dele". E assim foi feito.
PS - Aproveitando uma carta ótima, recordei e contei acontecimentos inteiramente desconhecidos, até hoje não revelados.
PS 2 - Eu ia a Montevidéu com Lacerda, não consegui autorização para viajar. Se despedindo, Lacerda me disse: "Puxa, não queria ir sozinho, não por causa do Jango, nós somos políticos, vamos nos entender. Mas se Dona Maria Teresa aparece e me pergunta o que estou fazendo na sua casa? Não sei o que responder". Felizmente (para o encontro) Dona Maria Teresa não apareceu.
Garibaldi Alves
Um grupo quer que continue como presidente do Senado, seu mandato foi curto. Na nomeação "dos 97", ficou ao lado do povo.
No momento em que escrevo, Daniel Dantas vai prestar o primeiro depoimento. Preso, solto, preso novamente, até agora foi beneficiado pelo que se chama de "batalha judiciária". O juiz que cumpriu seu dever e determinou as duas prisões de Daniel Dantas está sendo intimidado e ameaçado de ser investigado pelo Conselho de Justiça. Este Conselho é presidido pelo próprio Gilmar Mendes.
Seria absurdo que o juiz fosse atingido por ter tomado a corajosa decisão de enfrentar os poderosos. O Conselho de Justiça foi criado para punir exatamente o contrário: os juízes que se submetem aos poderosos, que têm dinheiro para suborno.
Só a ameaça ao juiz funciona como alerta para outros de primeira instância, que queiram cumprir responsavelmente suas obrigações. Por que o assassino Pimenta Neves está solto há anos? E o Conselho, não devia examinar o fato?
O advogado milionário do cliente bilionário tem todo o direito e até obrigação de usar de todos os recursos legais para tentar soltá-lo. Mas não pode iludir a opinião pública, falar em "tratamento nazista para Daniel Dantas".
O advogado parece desconhecer o sistema que sempre o favorece e diz: "Gilmar Mendes chegou a presidente do Supremo por merecimento". Pode até ter merecimento.
Mas os ministros chegam à presidência do Supremo por simples rodízio. Todos são presidentes a não ser que caiam antes na expulsória dos 70 anos.
Como essa questão irá longe, esperemos o desenvolvimento. Chegaram a admitir o fim do recesso deste julho para que Gilmar Mendes não ficasse sozinho. Recuaram por duas razões. Os ministros não aceitaram a sugestão, e Gilmar Mendes não seria RATIFICADO.
Completamente desmoralizado e desprestigiado, o Senado desafia a opinião pública. E cria 97 cargos desnecessários com salários altíssimos. Só o presidente Garibaldi foi contra.
Mas o plenário do Senado é cúmplice, conivente, no mínimo omisso. A Mesa (excluído seu presidente) não é soberana. O plenário, esse sim, soberano, deveria examinar e votar a questão.
Tomou posse ontem, como chefe do Estado Maior do Exército, o brilhante general Dark de Figueiredo. Há mais de 2 meses, revelei aqui que ele seria indicado e tomaria posse dia 11 de julho.
Continuo insistindo, com base em informações, documentos e tudo o que já escrevi no passado: quando começarem a investigar a ligação de Daniel Dantas com os fundos, principalmente estatais, Daniel Dantas não terá mais dificuldades.
Em vez de prisão provisória ou preventiva, Daniel Dantas terá direito a prisão perpétua. A inflação não o atingirá.
O general Augusto Heleno (como revelei ontem) já está internado. Será operado hoje ou amanhã. Vai tirar uma vértebra, substituída por titânio. Em dezembro ou janeiro, deixa o comando da Amazônia.
Coragem e mérito do presidente Lula: no Vietnã, elogiou a vitória do pequeno país contra os EUA. Quem faria isso criticando os EUA potência? Isso confirma o que tenho dito: lá fora, o sucesso do presidente brasileiro é total.
Daniel Dantas fez comentários amargos, principalmente quando na prisão conversava com Naji Nahas: "Ajudei tanta gente a chegar à Câmara e ao Senado, ninguém elevou a voz para me defender".
Os jornalões, arrogantes e nada insuspeitos, erram muito no exame do caso Daniel Dantas. Não tendo segurança, apelam para o imponderável. Dizem que o juiz de primeira instância desafiou o Supremo, falam em confronto de duas instâncias.
Por enquanto não existe desafio nem confronto. O juiz de primeira instância mandou prender Daniel Dantas. O presidente do Supremo concedeu a ordem para soltar o prisioneiro. Ambos cumprindo suas obrigações, nenhum confronto.
Em outro processo, o juiz mandou prender novamente Daniel Dantas, nem confronto nem desafio. Daniel Dantas tem uma vida financeira tão criminosa, que pode ser preso tantas vezes quantas forem necessárias para fazer justiça.
XXX
Depois de Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pitta, o caso de Paulinho da Força devia ser arquivado. Não conheço o deputado sindicalista, mas a desproporção das acusações a ele e o que foi provado dos outros três, descomunal. Se Daniel Dantas for depor, a audiência da TV Senado voltará ao apogeu dos tempos de Jefferson e Dirceu. Este foi citado agora, Jefferson não.
O autor da proposta, que será recusada, é o deputado Gustavo Fruet. Por mais surpreendente que possa parecer, existem incautos e ingênuos que aplicavam dinheiro no Opportunity. Jamais ganharam um real. E agora perderão o resto do que sobrava.
Petistas dissidentes, que não pertencem ao PT-PT, dizem pedindo sigilo: "Bem que eu não votei em Greenhalgh quando candidato a presidente da Câmara". Adivinharam? Ou estão chutando?
Boatos e sussurros: Gilmar Mendes teria pedido segurança ao ministro da Justiça. Este desmentiu, disse que foi ele que ofereceu e Gilmar Mendes recusou.
Helio
Inspirado em teu artigo, quero lembrar que o destino colocou Brizola e Lacerda lado a lado na história brasileira; só faltou serem íntimos. Vamos ver: José Brizola, pai de Brizola (que morreu degolado), foi capitão dos provisórios de Leonel Rocha, caudilho maragato, na Revolução Federalista de 1923, que em 1924 deu apoio a Prestes, com homens e armas. Terminada a revolução, já em 1928, os líderes maragatos, tendo à frente Assis Brasil, fundaram o Partido Libertador, e Maurício de Lacerda, pai de Lacerda, foi um dos fundadores. Maurício seguia o ideário maragato, pelo qual o pai de Brizola morreu lutando.
Brizola e Lacerda "terçaram armas" na Câmara de Deputados em 1954, quando eleitos deputados federais: Lacerda começava a jurar a Constituição, quando Brizola interrompeu dizendo que era um juramento falso, porque ele estava pregando o golpe de Estado lá fora. Brizola exibiu a Tribuna da Imprensa, em que Lacerda defendia um estado de emergência; houve estupefação geral (Moniz Bandeira).
Atenciosamente,
Antonio Santos Aquino - Rio de Janeiro
Comentário e revelações
Lembro muito bem esse episódio em 31 de janeiro de 1955. Brizola já havia feito o juramento, quando Lacerda ia fazer o seu foi interrompido de forma agressiva e inédita. Mas não tiveram mais oportunidade de se relacionarem. Brizola foi logo para o Sul, nesse mesmo 1955, em 3 de outubro se elegeu prefeito de Porto Alegre. Não terminou o mandato, em 3 de outubro de 1958 era eleito governador do Estado.
Curiosamente derrotando a UDN e o PSD, que se aliavam sempre contra ele, que disputava pelo PTB. UDN e PSD tinham a intuição ou a certeza de que o homem a derrotar, de qualquer maneira, era Leonel Brizola. E acabaram tendo razão.
Ele e Lacerda continuavam distantes, mais geográfica do que ideológica ou administrativamente. Brizola assumiu o governo em janeiro de 1959, Lacerda em dezembro de 60. Os dois foram excelentes governadores. Em 3 de outubro de 1962, ainda governador do Rio Grande do Sul, Brizola se elegeu deputado federal pela Guanabara, governada por Lacerda.
Deixou o governo em 31 de janeiro de 1963, no mesmo dia assumia na Câmara. A partir daí a História é visível, não precisa ser contada. O golpe de 64 (um contra, o outro a favor) acabaria por destruir os dois, impedindo que chegassem a presidente. Brizola tinha enorme capacidade de "fazer amigos e inimigos". Antes de 64, candidato a presidente com o slogan "cunhado não é parente, Brizola para presidente". Ainda em 1963, tentou um acordo com Jango, que o nomearia ministro da Fazenda e o marechal Lott, ministro da Guerra, com o direito de vigiá-lo no Ministério da Fazenda para "que não fizesse loucura".
João Goulart até que não ficou totalmente contra, pediu tempo. Mas conversou com Roberto Marinho, que acabava de publicar na primeira página de "O Globo" o editorial "João Goulart, um estadista". Com base nisso, estando na companhia do embaixador Lincoln Gordon, e sentado na cama do presidente, disse a ele: "Se você (intimidade total) nomear o Brizola ministro da Fazenda, não termina o mandato". Goulart recuou, não nomeou Brizola e não terminou o mandato. Era melhor ter nomeado, não sei o que aconteceria, mas o Brasil não seria o mesmo.
Quando Carlos Lacerda foi a Montevidéu, levar o "Manifesto da Frente Ampla" para o ex-presidente assinar, conversaram demoradamente. Em determinado momento, Carlos Lacerda disse a João Goulart: "Tenho que ir embora pois vou a Atlântida (onde Brizola estava confinado, por ter feito declarações sobre o golpe de 64 e os generais brasileiros pediram ao Uruguai que o mandassem para o interior, o que foi feito) ver se o governador Brizola quer assinar o Manifesto".
Na volta, Carlos Lacerda me contou, ainda surpreendido: "Quando falei isso, João Goulart empurrou o papel para mim e disse, se esse senhor assinar eu não assino". Perguntei o que ele fez. Resposta: "Disse, presidente, se o senhor não quiser não procuramos a assinatura dele". E assim foi feito.
PS - Aproveitando uma carta ótima, recordei e contei acontecimentos inteiramente desconhecidos, até hoje não revelados.
PS 2 - Eu ia a Montevidéu com Lacerda, não consegui autorização para viajar. Se despedindo, Lacerda me disse: "Puxa, não queria ir sozinho, não por causa do Jango, nós somos políticos, vamos nos entender. Mas se Dona Maria Teresa aparece e me pergunta o que estou fazendo na sua casa? Não sei o que responder". Felizmente (para o encontro) Dona Maria Teresa não apareceu.
Garibaldi Alves
Um grupo quer que continue como presidente do Senado, seu mandato foi curto. Na nomeação "dos 97", ficou ao lado do povo.
No momento em que escrevo, Daniel Dantas vai prestar o primeiro depoimento. Preso, solto, preso novamente, até agora foi beneficiado pelo que se chama de "batalha judiciária". O juiz que cumpriu seu dever e determinou as duas prisões de Daniel Dantas está sendo intimidado e ameaçado de ser investigado pelo Conselho de Justiça. Este Conselho é presidido pelo próprio Gilmar Mendes.
Seria absurdo que o juiz fosse atingido por ter tomado a corajosa decisão de enfrentar os poderosos. O Conselho de Justiça foi criado para punir exatamente o contrário: os juízes que se submetem aos poderosos, que têm dinheiro para suborno.
Só a ameaça ao juiz funciona como alerta para outros de primeira instância, que queiram cumprir responsavelmente suas obrigações. Por que o assassino Pimenta Neves está solto há anos? E o Conselho, não devia examinar o fato?
O advogado milionário do cliente bilionário tem todo o direito e até obrigação de usar de todos os recursos legais para tentar soltá-lo. Mas não pode iludir a opinião pública, falar em "tratamento nazista para Daniel Dantas".
O advogado parece desconhecer o sistema que sempre o favorece e diz: "Gilmar Mendes chegou a presidente do Supremo por merecimento". Pode até ter merecimento.
Mas os ministros chegam à presidência do Supremo por simples rodízio. Todos são presidentes a não ser que caiam antes na expulsória dos 70 anos.
Como essa questão irá longe, esperemos o desenvolvimento. Chegaram a admitir o fim do recesso deste julho para que Gilmar Mendes não ficasse sozinho. Recuaram por duas razões. Os ministros não aceitaram a sugestão, e Gilmar Mendes não seria RATIFICADO.
Completamente desmoralizado e desprestigiado, o Senado desafia a opinião pública. E cria 97 cargos desnecessários com salários altíssimos. Só o presidente Garibaldi foi contra.
Mas o plenário do Senado é cúmplice, conivente, no mínimo omisso. A Mesa (excluído seu presidente) não é soberana. O plenário, esse sim, soberano, deveria examinar e votar a questão.
Tomou posse ontem, como chefe do Estado Maior do Exército, o brilhante general Dark de Figueiredo. Há mais de 2 meses, revelei aqui que ele seria indicado e tomaria posse dia 11 de julho.
Continuo insistindo, com base em informações, documentos e tudo o que já escrevi no passado: quando começarem a investigar a ligação de Daniel Dantas com os fundos, principalmente estatais, Daniel Dantas não terá mais dificuldades.
Em vez de prisão provisória ou preventiva, Daniel Dantas terá direito a prisão perpétua. A inflação não o atingirá.
O general Augusto Heleno (como revelei ontem) já está internado. Será operado hoje ou amanhã. Vai tirar uma vértebra, substituída por titânio. Em dezembro ou janeiro, deixa o comando da Amazônia.
Coragem e mérito do presidente Lula: no Vietnã, elogiou a vitória do pequeno país contra os EUA. Quem faria isso criticando os EUA potência? Isso confirma o que tenho dito: lá fora, o sucesso do presidente brasileiro é total.
Daniel Dantas fez comentários amargos, principalmente quando na prisão conversava com Naji Nahas: "Ajudei tanta gente a chegar à Câmara e ao Senado, ninguém elevou a voz para me defender".
Os jornalões, arrogantes e nada insuspeitos, erram muito no exame do caso Daniel Dantas. Não tendo segurança, apelam para o imponderável. Dizem que o juiz de primeira instância desafiou o Supremo, falam em confronto de duas instâncias.
Por enquanto não existe desafio nem confronto. O juiz de primeira instância mandou prender Daniel Dantas. O presidente do Supremo concedeu a ordem para soltar o prisioneiro. Ambos cumprindo suas obrigações, nenhum confronto.
Em outro processo, o juiz mandou prender novamente Daniel Dantas, nem confronto nem desafio. Daniel Dantas tem uma vida financeira tão criminosa, que pode ser preso tantas vezes quantas forem necessárias para fazer justiça.
XXX
Depois de Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pitta, o caso de Paulinho da Força devia ser arquivado. Não conheço o deputado sindicalista, mas a desproporção das acusações a ele e o que foi provado dos outros três, descomunal. Se Daniel Dantas for depor, a audiência da TV Senado voltará ao apogeu dos tempos de Jefferson e Dirceu. Este foi citado agora, Jefferson não.
O autor da proposta, que será recusada, é o deputado Gustavo Fruet. Por mais surpreendente que possa parecer, existem incautos e ingênuos que aplicavam dinheiro no Opportunity. Jamais ganharam um real. E agora perderão o resto do que sobrava.
Petistas dissidentes, que não pertencem ao PT-PT, dizem pedindo sigilo: "Bem que eu não votei em Greenhalgh quando candidato a presidente da Câmara". Adivinharam? Ou estão chutando?
Boatos e sussurros: Gilmar Mendes teria pedido segurança ao ministro da Justiça. Este desmentiu, disse que foi ele que ofereceu e Gilmar Mendes recusou.
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