sexta-feira, 11 de julho de 2008

LIBERDADE É O BEM SUPREMO (Helio Fernandes - Tribuna da Imprensa)

Obrigado, Gilmar Mendes, por soltar Daniel Dantas


Daniel Dantas, gloriosamente em liberdade, é tudo, o rol dos seus crimes não poderia ser publicado, mesmo utilizando um jornal inteiro. Mas uma coisa é irrefutável e irrevogável: NÃO É MENTIROSO. Publicamente, em entrevista vastamente citada, não escondeu, até fez questão de revelar: "Meu problema é na PRIMEIRA INSTÂNCIA. Depois, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, resolvo com facilidade".

O criminoso bilionário, de dentro da cadeia, usando apenas o advogado milionário, resolveu tudo. O criminalista milionário não pode festejar como sua a vitória e a libertação do cliente. Todo o mérito foi desse criminoso-bilionário.

Como um intermediário de luxo, fez apenas uma viagem a Brasília, voltou em alta velocidade para São Paulo, ficou esperando na porta que o cliente, a irmã e o ex-cunhado fossem libertados. O presidente Gilmar Mendes, cuidadoso, colocou "que a ordem de libertação fosse cumprida imediatamente". Como se alguém se atrevesse a NÃO SOLTAR NA HORA, SEM DEMORA, deixar de cumprir a decisão que libertava um PROTEGIDO da Justiça.

O ministro Gilmar Mendes E-R-R-O-U duas vezes, na véspera e no dia em que concedeu o habeas-corpus. Véspera: sabia que ia julgar o habeas-corpus, não podia dizer coisa alguma, seu silêncio deveria ser total e absoluto. Mas falou, e inconseqüentemente. Textual: "Isso faz inveja ao regime soviético". Depois, criando até uma palavra: "A ESPETACULARIZAÇÃO da polícia é um fato condenável".

Vejamos. A polícia não deu um passo sem estar "coberta" pela Justiça. Toda a investigação foi autorizada por juízes, na hora e no dia das prisões. Apenas cumpria mandados de prisão, e busca e apreensão. Essa ESPETACULARIZAÇÃO foi feita pela polícia? Ela não tem canais de comunicação, se a televisão foi autorizada a "cobrir e divulgar tudo", o que a polícia pode fazer?

No dia seguinte: o ministro concedeu o habeas-corpus que antecipadamente sabia que iria julgar. E ainda avançou por caminhos perigosamente injustos, ao dizer: "Não havia motivo para a prisão". Quer dizer: para o ministro Gilmar, corromper um delegado, que investigava Daniel Dantas, pagar a ele em parcelas 1 milhão (de dólares ou reais), tudo gravado, filmado, constatado com ORDEM JUDICIAL, não é crime. Tanto dinheiro em casa não convenceu nem empolgou o ministro, que já estava com sua "convicção" firmada.

Deixemos de lado essa jurisprudência firmada pelo próprio presidente do Supremo, de que "CORROMPER AUTORIDADES NÃO É CRIME", continuemos a examinar a questão, já não mais no âmbito da Justiça.

O que fará Daniel Dantas, agora em LIBERDADE PERMANENTE, só poderá ser preso depois de CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. Viverá tanto tempo? Viajará para o exterior?

Deve ficar no Brasil mesmo, não obterá em nenhum outro lugar a proteção conquistada aqui. Não pode ir para os EUA, lá responde a um processo movido contra ele pelo Citibanque. E se o banco americano vencer, todo o dinheiro que Daniel Dantas ROUBOU a vida inteira não será suficiente para pagar essa indenização. A ligação Daniel Dantas-Naji Nahas surgiu exatamente por causa desse processo do Citibanque. Não podendo ir aos EUA, serviu-se de Naji Nahas, que sabidamente tem as mesmas CONVICÇÕES e FORMAÇÃO, são IRMÃOS GÊMEOS NO CRIME FINANCEIRO.

Foi o próprio Daniel Dantas que levantou a IDÉIA DE QUE estava sendo perseguido POR CAUSA DO MENSALÃO. Idéia brilhante, dele e do advogado milionário. Ontem mesmo revelei, não custa lembrar: NUMA OPERAÇÃO ILÍCITA de quase 6 BILHÕES, Daniel Dantas DOOU a Marcos Valério apenas 132 milhões. Além do mais, o mensalão é recentíssimo, Daniel Dantas é CRIMINOSO FINANCEIRO NOTÓRIO pelo menos há 20 anos.

Naji Nahas e Celso Pitta não entrarão com habeas-corpus no Supremo. Modestos, também indefensáveis como Daniel Dantas, sabem que não ganharão. Gilmar Mendes dará demonstração de firmeza, espírito de justiça e respeito pela Justiça, mantendo os dois na prisão até que o julgamento transite em última instância.

PS - Ave, Gilmar, os que ganharam a liberdade te saúdam.

PS 2 - Daniel Dantas foi solto às 5 horas da manhã e preso novamente às 5 da tarde. Houve desrespeito ao habeas-corpus do ministro Gilmar Mendes? De maneira alguma. Acontece que Daniel Dantas cometeu tantos crimes financeiros, que a cada habeas-corpus corresponde uma nova prisão.

PS 3 - Dantas é tão criminoso, que a cada ano Gilmar Mendes poderá conceder 360 habeas-corpus, que ele será preso outras 360 vezes. Sua quadrilha foi desmantelada, o objetivo de Dantas agora é ver se fica em liberdade pelo menos duas vezes por semana.

Berlusconi
Como o momento é de elogio à corrupção, brindemos a este corrupto da Itália. É mais do que Daniel Dantas.

Esses senhores do G-7 mais a Rússia são inconseqüentes, incoerentes, incompetentes e até insensatos. Garantiram que no "ano 2050" terão reduzido bastante o efeito estufa ou a "sujeira do meio ambiente", que eles mesmo provocaram. Dentro de 42 anos? Qual deles ainda estará aí depois desses 42 anos? E até os países do G-7, que é G-8, podem dizer que resistirão, que sobreviverão à decadência que é visível?
Burlusconi, o maior corrupto da Itália (e que no mundo está no mesmo nível de Daniel Dantas), deu uma reviravolta no caso de Kaká e sua possível convocação para a seleção olímpica que irá a Pequim.

Embora a palavra de Berlusconi não valha nada, ele é primeiro-ministro da Itália. Kaká afirmou que não seria liberado pelo Milan, de propriedade de Berlusconi. Agora, Kaká está livre e garantido.
Fui o único a criticar Ingrid Betancourt e a operação de libertação dela. Achei estranho que ela chamasse Uribe de herói, e dissesse: "Ele tem direito ao terceiro mandato". Garanti: ela será candidata.

Muitos me escreveram, contestando. Agora está aí, a veracidade das minhas informações e opiniões. Dona Ingrid muda espetacularmente de posição, e diz publicamente: "Não voto em Uribe, ele foi eleito pelas Farc". O que eu disse, acontecerá: Ingrid-contra Uribe.
Gosto muito do senador Garibaldi Alves, mas ele, como outros, falou demais, e sem conhecimento de causa. O que ele disse: "Sou contra a prisão de pessoas altas horas da madrugada, absurdo".

O ex-prefeito Celso Pitta foi o único preso, por estar em São Paulo. Os outros foram intimados, se apresentaram. Celso Pitta foi preso às 7 horas da manhã. O presidente do Senado considera altas horas?
Perigo à vista. O senador Mozarildo Cavalcanti pediu CPI da Amazônia. Ligadíssimo ao senhor Quartiero, essa CPI pode ser considerada contra a Amazônia. Seria melhor não funcionar, mas vai.

No Congresso, muita gente lembrava ontem e anteontem: "Baiano, Daniel Dantas tinha um grande amigo no Senado, ACM". Esqueceram de concluir o nome, que por inteiro é ACM-Corleone.
O presidente Lula não acredita mesmo em Dona Marta. Mandou garantir ao prefeito Kassab que se ele for para o segundo turno com Alckmin ficará com ele, poderá até subir no seu palanque. Dona Marta, furiosa.

A sorte da ex-prefeita derrotada no Poder é que Lula não é bom analista, nem se interessa por informação. Kassab não tem uma chance em 1 milhão de ir ao segundo turno. Dona Marta vai e perde como antes.
O general Augusto Heleno, comandante da Amazônia, e hoje, sem dúvida, a maior liderança do Exército, será operado no fim de semana, no Rio. Problema na coluna cervical, que o incomoda há muito.

O governo ia substituí-lo agora, deixou para janeiro. Motivo: ainda não sabe onde colocar Augusto Heleno e quem indicar para a Amazônia.
Ora, dizer que a operação dos criminosos financeiros é comandada pelo PT-PT é "menas" verdade, espalhada e engendrada, que palavra, pelo mortífero esquema Daniel Dantas. Envolveram até o advogado Luiz Eduardo Greenhalg. Se for verdade, para mim, espantoso.

A importância da Academia (que muitos tentam desmoralizar por hipocrisia) ganhou um reforço. O general de 4 estrelas Luiz Edmundo Maia de Carvalho escreveu carta a Cicero Sandroni, pedindo a eleição da candidata Palmerinda Donato. Ele é chefe do Estado Maior do Exército, cai na "expulsória" hoje.
Além desse apoio, ela tem recomendação da embaixadora do Marrocos, do embaixador do Suriname, da Guiana Inglesa, do embaixador de Trinidad & Tobago. Todos escreveram ao presidente da Academia.

Além de todos os crimes financeiros, da gravíssima e provadíssima tentativa de suborno do delegado que chefiava as investigações contra ele, Daniel Dantas gravava ligações telefônicas de muitos.
Há 3 anos, sua maior vítima foi o jornalista (do primeiro time) Ricardo Boechat. Dantas gravou uma conversa de Boechat com Paulo Marinho.

A revista Veja, inacreditalvemente, publicou toda a gravação, a ligação de Daniel Dantas com a revista era notória.
Boechat passou um tempo no JB, foi para São Paulo, está satisfeitíssimo na Rádio e Televisão Bandeirantes. Anteontem, no "Jornal da Band", Boechat foi arrasador, demolindo Daniel Dantas.

Ontem o programa acabou tarde, fora do horário desta coluna, não posso noticiar o que Boechat informou e comentou.
Nada agradável para o criminoso financeiro. Paulo Marinho, que agora trabalha para Eike Batista. Este que se cuide com a "egolatria".
XXX

O Fluminense perdeu a "virgindade" no brasileirão, agora se joga no entusiasmo de ter obtido uma vitória. Como o Atlético do Paraná não faz gol, o Fluminense já vencia quando o Dodô fez o primeiro gol. O resto foi esquisitice.

E o Vitoria da Bahia, em segundo lugar, surpresa mas satisfação. Também, derrotar o Botafogo soma pontos, mas deixou Geninho desempregado.

XXX

Nessa questão de habeas-corpus, a única verdade é esta: não há como ligar Cacciola a Daniel Dantas. Este é um criminoso de altas ligações, tem um prontuário negativo de mais de 20 anos, mas jamais foi condenado. Cacciola foi condenado, tem uma prisão de 13 anos a cumprir. Tem esperanças de não voltar ao Brasil. Dantas é protegidíssimo pelo esquema ou sistema.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Apesar de tudo, valeu (Carlos Chagas - Tribuna da Imprensa)

BRASÍLIA - Se dependesse de boa parte de deputados e senadores, as férias parlamentares teriam começado segunda-feira. Como os trabalhos prolongam-se até o dia 18, muitos parlamentares são flagrados andando na ponta dos pés, esgueirando-se pelos corredores e evitando passar pela porta das salas de imprensa.

O motivo? O motivo tem nome, carteira de identidade, telefone e endereço, ainda que pelo menos até ontem obrigada à súbita e forçada mudança, passando da Avenida Vieira Souto, no Rio, para uma cela na Polícia Federal, em São Paulo. Chama-se Daniel Dantas, banqueiro que costumava referir-se a seus amigos políticos como "a minha bancada".

Quantos deputados e senadores Daniel Dantas ajudou, tendo sido também ajudado, nos últimos dez anos? Fica difícil calcular, em especial porque, hoje, a maioria deles é capaz de jurar jamais ter visto o personagem. A ingratidão parece própria da Humanidade, mas, em se tratando de políticos, bate todos os recordes.

O homem é polivalente, porque suas ligações estendem-se a muitos partidos, do DEM ao PT, passando pelo PSDB, o PMDB, o PTB, o PP e outros. Sua participação no mensalão foi subsidiária, ainda que consistente, mas muito antes já se movimentava também junto a ministros do governo Fernando Henrique e, depois, do governo Lula.

Daniel Dantas é um produto do meio, jamais artífice. Aproveitou-se da fase das privatizações desmedidas e não parou mais, sempre enriquecendo mais no dia seguinte do que na véspera. Sem políticos e sem tecnocratas, não chegaria aonde chegou, tanto por sua fortuna quanto por sua recente prisão. Ninguém duvida de que em poucos dias, até horas, voltará à liberdade, se é que ainda não voltou. Mas não existiria como potentado financeiro caso não recebesse auxílio de políticos e de governantes, que obviamente também ajudou. E como...

Bem diferente é outro dos detidos pela Polícia Federal, Naji Nahas, favorito na disputa pela medalha de ouro destinada aos cidadãos que mais deram prejuízo ao País.

Megaespeculador, foi responsável pela falência da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, não tendo limite o quanto manipulou em matéria de dólares, euros e outras moedas, sempre à custa do real. Solitário, faz parte daquela fauna de especuladores que jamais forjaram um parafuso ou contribuíram para a criação de um único emprego. Apesar de apresentar-se como empresário, em momento algum de sua trajetória preocupou-se com o semelhante.

Quanto ao terceiro dos muitos engaiolados na manhã de terça-feira, Celso Pitta, também difere dos demais. Trata-se não de um pobre coitado, mas de um rico coitado, à medida que construiu razoável fortuna como prefeito de São Paulo, à custa de comissões sobre obras e serviços públicos. Amealhou muito, mas jamais descuidou-se do pouco, quer dizer, tudo o que entrasse em sua conta bancária era lucro.

Tem gente indignada com a ação da Polícia Federal, acusando a instituição de armar espetáculos muito a gosto da imprensa. É o de menos, ou melhor, trata-se de iniciativa até elogiável alertar as equipes de televisão para registrarem prisões e confisco de documentos. O fundo prevalece sobre a forma, ou seja, a população tem o direito de conhecer detalhes de formação de quadrilha, evasão e lavagem de dinheiro, corrupção, fraudes, remessas ilegais e manipulação de recursos públicos.

Quanto ao que vai acontecer ninguém precisa iludir-se. Só por milagre os três serão condenados. Nem os outros. Muito menos ficará detidos mais do que poucos dias. Ou horas, vale repetir. Voltarão às suas atividades criminosas, continuarão milionários como antes, até rindo da aventura que os levou a deglutir quentinhas e a cobrir-se com cobertores de qualidade duvidosa, condenados a ouvir os roncos dos companheiros de cela.

E se por acaso exasperarem-se, sempre poderão mudar-se para o exterior, onde serão recebidos com pompa e circunstância devidas às suas fortunas. Mesmo assim, valeu, ou está valendo. Porque quantos outros ladravazes de igual quilate deixarão de supor a hipótese de o episódio repetir-se com eles?
Um lobo mau muito simpático

Com todo o respeito, mas, ontem, três leitõezinhos muito fofos entraram por iniciativa própria na caverna do lobo mau. Um lobo mau muito simpático, registre-se, porque serviu café e laranjada.

Falamos da visita que os senadores Eduardo Suplicy, Pedro Simon e Cristóvam Buarque fizeram ao embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Cliford Sobel.

Foram buscar explicações e até pedir satisfações pela súbita criação da Quarta Frota da Marinha americana, encarregada de patrulhar o litoral da América do Sul e do Caribe.

Como não poderia deixar de ser, ouviram que esse monte de navios e submarinos carregados de mísseis, aviões e de marines vem aí como homenagem aos países amigos, para ajudá-los, se for o caso, a combater o narcotráfico e o contrabando. Foi mera coincidência, disse o embaixador, que a decisão sobre a Quarta Frota acontecesse pouco depois do anúncio, pelo Brasil, da descoberta de imensas reservas de petróleo em nosso litoral.

Quer dizer, o lobo mau mostrou o caldeirão onde serão cozinhados, além dos dentes, e os leitõezinhos agradeceram...
Justa homenagem

Dia 15, no restaurante do Jóquei Clube, no Rio, um grupo de jornalistas vai homenagear o jurista Célio Borja com um almoço. Por iniciativa de Alfredo Viana, velhos companheiros farão justiça a um dos políticos mais corretos que tem passado pela vida pública, ocupando as mais importantes funções e credenciando-se como exemplo para o País.

Deputado Federal, presidente da Câmara, ministro da Justiça, ministro do Supremo Tribunal Federal, advogado militante, Célio Borja, por modéstia, omite uma série de iniciativas que tomou em nome da democracia, mesmo nos tempos mais duros do autoritarismo. Pouca gente sabe que deu guarida ao então líder sindical e deputado comunista, Hércules Correia, evitando que fosse preso e, muito provavelmente, desaparecido

quarta-feira, 9 de julho de 2008

No "caminho da verdade" - Mauro Braga (Tribuna da Imprensa)

Diariamente, ao se deparar com a realidade, o brasileiro enfrenta uma sensação de "déjà vu". O velho enredo com cenas de impunidade, onde autoridades saem ilesas após usarem e abusarem da verba coletiva, se repete e marca com o brasão da vergonha o cotidiano tupiniquim. Entra ano e sai ano, as únicas coisas que ficam são as reclamações e as promessas vazias dos governantes. Ontem, entretanto, um fato que quase assume traços de singularidade na história do País, mostra que a justiça pode e deve ser feita. Olho por olho, dente por dente. Agiu contra as regras, deve ser submetido ao rigor das leis. Sem dó.

A operação batizada de "Satiagraha" da Polícia Federal, cuja inspiração remete à expressão "firmeza na verdade", prendeu o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, o empresário Naji Nahas, além de doleiros. Segundo a PF, os detidos encabeçam uma quadrilha que teria cometido crimes financeiros. Os presos na operação podem ser indiciados por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e formação de quadrilha.

Durante a apuração do caso, houve a identificação de pessoas e empresas beneficiadas pelo suposto esquema montado pelo empresário Marcos Valério, que já está sendo processado pelo mensalão.

Pior do que saber que a "brincadeira" com a montoeira de dinheiro já vem sendo praticada há muito tempo, e que, em contraste, as carências populares acabam sendo submetidas para quarto ou quinto plano, é o constante gosto amargo da impunidade. O dissabor de que, no Brasil, rico não encara as grades e que é mais fácil chover dinheiro do que ver autoridade pagando pelos erros. Bom seria se o episódio não terminasse por aí. As apurações devem ser profundas e ir até às últimas conseqüências, e em todos os casos semelhantes. Que não são poucos, diga-se. Só vendo para crer.
Compostura

O prefeito do Rio, Cesar Maia, perdeu mesmo a noção do cargo que ocupa. Com tantos problemas que não tiveram solução ao longo de tantos anos, ele ainda se dá ao desfrute de gastar as poucas semanas que lhe restam à frente da prefeitura para, literalmente, fazer fofocas e comentar sobre assunto banais.
Ataque

Ontem, em seus escritos virtuais, atacou Jandira Feghali (PC do B). "(...) a candidata traumatizada por seu penteado de 2004 (Atração Fatal) mudou para pior. O anterior era muito melhor. Escreva a este ex-Blog e diga com quem ela se parece agora!", disse. Falta do que fazer. Ou melhor, falta de vontade de fazer.
Obrigatório

A Câmara Municipal do Rio publicou na última segunda-feira, em seu "Diário Oficial", a tramitação do projeto de lei de autoria da vereadora Silvia Pontes (DEM), que obriga o acréscimo nos cardápios pelos restaurantes, bares, lanchonetes e similares do município do seguinte termo: "Álcool e direção não combinam. Vá de Táxi!".
Segurança

A medida determina também a inclusão de, no mínimo, três nomes de cooperativas de táxi, à escolha do estabelecimento, para atender aos clientes que consumirem bebidas alcoólicas. Pelo projeto, quem descumprir a norma será multado. "Nossa cultura está mudando e devemos cercar a população de todas as informações, e principalmente, facilidades, oferecendo transporte seguro", destacou a vereadora.
"Corrente do Goró"

Enquanto isso, uma galera segue na contramão da segurança. Como para quase tudo no Brasil existe o "jeitinho", com a Lei Seca não seria diferente. Jovens e freqüentadores de bares, casas noturnas, e afins, criaram a "Corrente do Goró" já instaladas no Paraná, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Rio e Distrito Federal, através da rede de relacionamentos do Orkut. E convocam outros estados a ingressarem.
Malandragem

Eles se comunicam quando alguém passa por uma blitz ou tem a informação prévia de onde a mesma será montada. O lema da comunidade é "Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças", parafraseando o naturalista inglês Charles Darwin. Assim, tentam burlar o estabelecido. É mole?
Parceria

No início desta semana, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) e o Ministério Público estadual oficializaram uma parceria. Na ocasião, o presidente da CPI, Marcelo Freixo (PSOL), entregou ao procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, dois ofícios solicitando o envio de informações já levantadas pelo MP sobre as milícias.
Experiência

Marfan reforçou a intenção do órgão de cooperar com o trabalho da CPI. "Temos aqui um trabalho forte de combate às milícias, desenvolvido fundamentalmente na Zona Oeste do Rio, com as promotorias regionais com larga experiência neste tema. E serão elas que, certamente, irão subsidiar, com documentos e informações, o trabalho da CPI", disse.
Frase do dia

"Há muitas e muitas famílias neste país de 190 milhões de habitantes que não consomem nem o essencial, e não podemos achatar o consumo de quem não consome". (Do presidente em exercício, José Alencar, ao voltar a condenar a política do Banco Central de elevação da taxa básica de juros)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Urgente, CPI para apurar o que houve em Volta Redonda (Helio Fernandes)

Empobrecimento da CSN, enriquecimento de Steinbruch

A coluna diária do Helio Fernandes, veiculada pela Tribuna da Imprensa e pela Tribuna ONLINE, está trazendo esperança ao sofrido povo de Volta Redonda e cidades circunvizinhas. Nos bares, nos restaurantes, nas faculdades, nos clubes, no interior da Usina da CSN, em todos os lugares da cidade os comentários são os mesmos: de admiração pela coragem de Helio Fernandes em desmascarar o Barão? Steinbruch. Parabéns.

Helio, quem lhe escreve é Joel Silva. Sou técnico em contabilidade, trabalho e moro em Volta Redonda a dezenas de anos. De tanto ouvir os lamentos de centenas de pessoas desempregadas, os reclamos de trabalhadores da CSN, presenciar o sofrimento da população diante das perversidades e abusos do Barão? Steinbruch, entre outros: a CSN não paga em dia os impostos devidos à prefeitura de Volta Redonda - o IPTU etc., protocolei denúncia contra a CSN na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 16/06/2008, conforme matéria de 28 páginas, pedindo rigorosas investigações. E também vou protocolar, na próxima semana, cópia da mesma matéria nos EUA (SEC/NYSE), via embaixada. Estou apenas aguardando receber do tradutor a versão português/inglês.

Recentemente, o Barão? resolveu pagar o imposto (IPTU) devido pela CSN, referente ao exercício de 2007, mas pagou porque a Câmara dos Vereadores aprovou o projeto do Prefeito isentando todos os contribuintes das multas e grande parte dos juros devidos pela sonegação. Com isso, o Barão pagou o imposto devido e atrasado, ganhando alguns milhões.

O imposto (IPTU) devido pela CSN de 2006 está sendo cobrado via judicial, e recentemente foi bloqueado da conta bancária da CSN 30 milhões, penhorado em favor da prefeitura. Nota-se: ao que dizem, o dinheiro do imposto (IPTU) Benjamin aplicava em ações da própria CSN obtendo lucros astronômicos (2007 lucrou 157%), e depois espera a anistia, pagando o imposto atrasado sem multa e juros.

Isso acontece também com todas as dívidas da CSN em cobrança judicial. Ficar devendo aos credores (enquanto durar a especulação imobiliária), para o Barão, é um grande negócio, uma maravilha.

Ele aplica o dinheiro da dívida comprando ações da própria CSN, acreditando que no futuro o lucro que obterá na especulação imobiliária e financeira será muito superior aos juros devidos aos credores pelo atraso de pagamento. Para ele, não importam os prejuízos causados aos credores e ao povo.

Helio, faça uso desta matéria, da melhor forma que achares conveniente, para continuar combatendo brilhantemente o Barão perverso. Se precisar, tenho todos os documentos comprobatórios.

Obs.: (1) Tenho o apoio técnico de vários engenheiros especializados em siderurgia e mineração.

Obs.: (2) Helio, se você observar a matéria NAMISA/CASA DE PEDRA, em anexo itens 26 ao 32, poderá concluir que a divulgação terá repercussão nacional, será um sucesso. É pura realidade. O Barão tem medo disso, pois quer faturar bilhões com a venda dessas minas (para continuar especulando), não se importando com a Usina da CSN em Volta Redonda, pois sabe se falir, o BNDES assume. A CSN deve mais de 9,4 bilhões de reais, portanto, não pode vender seu patrimônio ou alienar parte dele, mas o Barão está tentando vender essas minas para os chineses.

Segundo técnicos especializados, a venda ou a exploração máxima da Mina de Casa de pedra poderá, dentro de 10 a 18 anos, inviabilizar a existência da siderúrgica de Volta Redonda. Isso poderá colocar a população de Volta Redonda e das cidades circunvizinhas, dependentes economicamente da CSN, somando mais de 500 mil habitantes, em desespero.

A publicação poderá alertar os investidores e eliminar (ou pelo menos reduzir muito) a especulação imobiliária com as ações da CSN, o que vem ocorrendo na BOVESPA e na NYSE, envolvendo essas minas e as divulgações enganosas de megaempreendimentos, constantemente veiculadas pela mídia, com relação à construção pela CSN de novas siderúrgicas em Itaguaí-RJ, Congonhas do Campo-MG e recentemente no Nordeste-PE, a mando do Barão.

Isso está enriquecendo o Barão (as ações da CSN no ano passado valorizaram 157%, o que é um absurdo!) e, agora, no primeiro semestre desse ano a média de janeiro R$ 55,00 e em 1º/07/2008 a ação foi cotada em R$ 68,32. Em 6 meses houve uma valorização de somente 24,218%. Em relação a 2007, as ações da CSN vêm caindo em queda livre. Com as divulgações de Helio Fernandes sobre a CSN, a especulação com as ações da CSN no 2º semestre desse ano poderá ser eliminada, e o Barão vai ficar doidão!)
Joel Silva.

PS - Tenho dezenas e dezenas de DOCUMENTOS, que mostram a decadência da CSN, a miséria das populações provocada pelo Barão Steinbruch. Ninguém toma providências?

Arlindo Chinaglia
Presidente da Câmara por acaso, queria ser candidato a prefeito de SP. Não foi nem considerado, incrível.

O projeto do senador Crivela, chamado "Cimento Social", vai tirar muito voto dele. Provocou estarre-cimento, provou que não tem conhe-cimento, que o que foi feito não teve engrande-cimento, só criou aborre-cimento, flagrado, não deu esclare-cimento, não merece agrade-cimento, sua campanha não terá recrudes-cimento, eleitoralmente é o mesmo que fale-cimento.

Rigorosamente verdadeiro: as relações entre Chávez (Venezuela) e Uribe (Colômbia), que eram péssimas e destrutivas, inesperadamente se transformaram em amistosas. E até totalmente amigáveis.
Foi a conselho de Chávez, que Uribe anunciou que vão convocar referendo para "legalizar" o mandato que está exercendo.

E mais: Chávez aconselhou Uribe a "se aproximar o mais possível do presidente Lula, uma liderança que cresce". Nem Lula sabe disso. Foi antes de Uribe se transformar em "herói macunaíma".
Os treinadores brasileiros estão acreditando que os torcedores são idiotas. Cuca, do Santos, que não vence há 7 jogos: "Estamos disputando o título do Brasileirão". O Santos disputou 27 pontos, ganhou 6.

Depois vem o Renato Gaúcho com a fanfarronice habitual. Perdeu a Libertadores, voltou ao Brasileirão, com 3 pontos ganhos em 24 disputados.
Garantiu na televisão: "Estaremos disputando o título e novamente na Libertadores". Enfrentou o Goiás, perdeu tolamente, continua "invicto". Tem que procurar Libertadores do rebaixamento.

Mas não é só no futebol. Na política também erram muito. Soninha, "a dispersiva", (royalties para o repórter especial e escritor Maklouf Carvalho) queria ser vice de Alckmin.
Seu partido, o PPS, exigiu que ela fosse candidata a prefeito. Iria ganhar 33 meses da prefeitura como vice, como candidata está em último e perde até o mandato de vereadora.

A vereadora Teresa Bergher vai à Justiça contra a ONG Transparência Brasil. Motivo: colocou seu nome ao lado dos vereadores acusados de assassinato. Exige retratação pública. Tem direito e vai ganhar.
Há quase 1 ano quando a vereadora Gouveia Vieira dizia que seria candidata a prefeita, eu ria muito e garantia: vai disputar a reeleição, não tem voto nem legenda. Agora, nos mais diversos bairros, inundação de publicidade dela, tem dinheiro sobrando e muito.

A Vale anuncia que "venderá quase 257 milhões de ações ordinárias e 164 milhões de ações preferenciais". De quem são essas ações? Da própria Vale? Ou emissão de novas? E os acionistas, sabiam de alguma coisa? Serão naturalmente prejudicados. Que República.
Chico Alencar propõe gastos de campanha igual para todos, no máximo 400 mil. Pois na mesma hora, Eduardo Paes anuncia o orçamento de 12 milhões. Quem bancará as despesas?

A propósito, embora inacreditável: sabendo que não tem chance de ir para o segundo turno (como aconteceu na disputa para governador), Eduardo Paes faz contatos. Só que para voltar ao PSDB, partido do qual era secretário-geral.
Curiosidade de SP eleitoral: Mercadante, que se elegeu senador em 2002, no apogeu, está "sentindo" que sua reeleição em 2010, corre perigo. Não queria ir ao lançamento de Dona Marta, "imprensado" teve que ir.

O presidente da Câmara, que pretendia ser o candidato (sem qualquer chance) também resistia. Sofre outro tipo de pressão, diferente do que foi usado com Mercadante. O primeiro a chegar: Paulinho da Força. Dona Marta queria o próprio Lula. Visão caótica.
O governo (ou a Petrobras) deveriam comprar 50 mil, 500 mil, 5 milhões de exemplares do livro "Nem todo o petróleo é nosso", e distribuir pelo Brasil inteiro. Seria um investimento em esperança e na grandeza do nosso destino certo de potência mundial.

Autores: o brigadeiro Ferolla e o escritor e engenheiro Paulo Metri. O livro foi publicado antes do Brasil ser incluído entre os parceiros obrigatórios da OPEP. E foi um alerta.
O governo (ou a Petrobras) entrariam numa negociação com a Editora Paz e Terra, gastaria muito menos do que é jogado fora com despesas inúteis, inócuas e inconseqüentes. E o Brasil todo receberia uma injeção positiva e maravilhosa.

A partir das primeiras descobertas, houve a extraordinária campanha do "Petróleo é nosso". Depois, por equívocos de vários lados, o petróleo foi fugindo do controle do País, principalmente no governo dos militares, que são obrigatoriamente defensores do Brasil.
Agora, lendo o livro, o Brasil verá assustado, porque "Nem todo o petróleo é nosso". Mas é preciso ler para compreender e se assustar.
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Durante 5 meses, o deputado Paulo Ramos me dizia: "Sou candidato a prefeito até o fim". Recebeu propostas para vice de vários candidatos, resistiu a tudo. O PDT está na disputa da prefeitura mais importante do Brasil, a do Rio.

A propósito da Alerj: vários, diversos, muitos deputados estaduais me dizem: "Helio, o deputado Álvaro Lins não será cassado". Pergunto a razão, e todos (pedindo sigilo por causa do corporativismo), respondem: "São necessários 36 votos para cassá-lo. Se conseguirem 36 deputados para a votação, será surpresa total".

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Em Salvador, ACM neto já esteve mais entusiasmado do que agora. São muitos candidatos, separados por poucos votos.

O PMDB pode apostar na candidatura Garibaldi Alves em vez da de Michel Temer. Resumindo: o senador do Rio Grande do Norte foi uma candidatura ocasional que deu certo, mas o mandato foi pequeno.

Já Michel Temer, que nem se elegeu em SP, joga apenas no seu próprio time. Mas o PMDB prefere ficar com a presidência do Senado.

Aecio Neves espera receber gordos dividendos amanhã. Motivo: vai inaugurar a Praça José Aparecido, que se chamava da Liberdade. Mudou de nome, mas continua histórica e intocável.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Oscar Niemeyer e as curvas da irreverência (Argemiro Figueiredo - Tribuna da Imprensa)

Com um século de existência, o arquiteto Oscar Niemeyer certamente já leu centenas de livros e artigos sobre sua obra. Mas o livro "Oscar Niemeyer: Curves of Irreverence", de Styliane Philippou, a ser lançado nos EUA a 2 de setembro, e o artigo "A Vision in Concrete", que Benjamin Schwartz publicou no número de julho-agosto da revista "Atlantic Monthly", oferecem também opiniões polêmicas.

Schwartz faz uma resenha do estudo de Philippou. Refere-se ainda a outros livros relativamente recentes: "When Brazil Was Modern", de Lauro Cavalcanti; "Brazil's Modern Architecture", editado por Elisabetta Andreoli e Adrian Forty; "Oscar Niemeyer: Houses", de Alan Hess; "Modernist Paradise", de Michael Webb; "Oscar Niemeyer and Brazilian Free-Form Modernism", de David Underwood; e as memórias de Niemeyer, "The Curves of Time".

O próprio fato de terem sido todos publicados em inglês e fora do Brasil dão a medida do reconhecimento internacional do legado de Niemeyer. Para Schwarz, a arquiteta e historiadora Philippou escreveu com autoridade sua avaliação sobre a obra do brasileiro e o lugar que ele ocupa na história da arquitetura e da cultura de seu país. Envolve temas tão distintos como a arquitetura colonial portuguesa do século 18, a bossa-nova, a topografia e a geografia cultural da praia de Copacabana.
A controvérsia e os debates

Longe de serem meras repetições de elogios, os livros e artigos também trazem de volta questionamentos, dúvidas e controvérsias. Tal debate, na verdade, sempre esteve presente na carreira do grande arquiteto brasileiro - como o compromisso político dele com mudanças sociais, que fez questão de manter a vida inteira, indiferente aos riscos pessoais e profissionais.

Ao analisar o livro de Philippou, Schwarz assinalou ter ela demonstrado serem "as realizações mais elevadas de Niemeyer profundamente informadas por uma estética brasileira, que fez das formas sinuosas um elemento básico de seu vocabulário - a exemplo da pavimentação em mosaico, alternando ondas pretas e brancas, tanto no período colonial como na Copacabana do início do século 20".

Outro destaque na análise meticulosa do livro, segundo a "Atlantic Monthly", é o que ela considera a primeira obra-prima de Niemeyer, o prédio do ministério da Educação, de 1943. Le Corbusier funcionou como um consultor da equipe de arquitetos brasileiros liderada por Niemeyer, que desenhou os elementos-chaves. "O mais belo prédio de governo no hemisfério ocidental", proclamou na época o MoMA de Nova York.
O início e as obras-primas

Segundo o livro, todas as obras-primas da fase inicial de Niemeyer - o Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York (1939) e o Cassino da Pampulha, que casavam a precisão e clareza do Estilo Internacional com as linhas sinuosas, orgânicas; o prédio do Banco Boavista no Rio; sua casa nas Canoas - fundiram a graça austera com o estilo relaxado, freqüentemente lírico.

Tal enfoque culminaria, como observou Schwarz, nos três melhores "palácios" de Niemeyer em Brasília: a residência presidencial, o ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e o Supremo Tribunal Federal. São prédios inspirados nas fazendas coloniais brasileiras (as amplas varandas sustentadas por colunas na casa grande das plantações), o que ajuda a explicar sua "grandeur" não intimidatória.

Phillippou os vê como monumentais e etéreos ao mesmo tempo. "Realizações imperecíveis", segundo a arquiteta e historiadora britânica. Mas ela não vê da mesma forma o resto da cidade. Muitos dos outros prédios esculturais, diz, parecem sem alma naqueles imensos campos pavimentados que oferecem poucos lugares para a pessoa sentar e pouca proteção sob o sol abrasador - a não ser as sombras dos próprios edifícios.
Brasília e os desdobramentos

A má reputação de Brasília, escreve o editor de "Atlantic Monthly", resulta em parte de sua história: apesar de construída por um governo progressista e mais ou menos democrático, tornou-se, quatro anos depois de concluída, a sede de um regime autoritário. E assim permaneceu por 21 anos. Obviamente, repetem-se no texto também as críticas habituais ao projeto urbanístico.

Seu planejador, Lúcio Costa, teria encontrado um cenário excessivamente vasto, fora de escala, como um oceano, com imensas nuvens movimentando-se acima. Nenhuma cidade inventada, segundo a autora do livro, seria capaz de acomodar-se naquela região inóspita. Costa procurou criar sua própria paisagem, não coerente com o meio-ambiente mas com teorias modernistas utópicas da racional e estéril "Cidade Radiante".

Schwarz observou ainda que, com Brasília, Niemeyer às vezes parece ter abraçado o pior aspecto do modernismo arquitetural - sua teoria urbana antissética. E no período pós-Brasília distanciou-se da graça e da lucidez nascidas da contenção. Os exemplos principais que aponta para comprová-lo são a Universidade de Constantine, na Argélia, e a Maison de la Culture, em Le Havre

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Força de Lula está na sua própria imagem (Pedro do Coutto - Tribuna da Imprensa

A pesquisa que o Ibope realizou para a Confederação Nacional da Indústria, publicada esta semana em quase todos os jornais, revela inabalada a popularidade tanto do presidente Lula quanto de seu governo. Inabalada, mais uma vez, e, ao que parece, inabalável através do tempo. Os números contidos nos levantamentos que têm sido trimestrais confirmam a tendência sempre no alto. Nada o atinge, tampouco o compromete. Um sinal de rara avaliação positiva para um governante, sobretudo quando se aproxima da metade de seu segundo mandato.

Em período de duração semelhante, seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, havia ingressado numa trajetória declinante, a qual não conseguiu reverter. E, inclusive, tornou-se o principal fator da primeira vitória de Luís Inácio da Silva nas urnas de 2002. No segundo turno, derrotou José Serra por 62 a 38 pontos. Quatro anos depois, venceria Geraldo Alckmin por 61 a 39 por cento. Dois resultados convergentes.

Comentando os números da pesquisa, a diretora do Ibope, Márcia Cavalari, leio no Estado de São Paulo, matéria assinada por Carlos Marchi, identifica uma aparente contradição entre o pessimismo da opinião pública quanto à eficácia do combate à inflação e à perspectiva de manutenção do poder de compra e os índices de aprovação de Lula e de sua administração.

Há três meses atrás, os que aprovavam o governo e confiavam no presidente eram, respectivamente, 72 e 68 por cento, são os mesmos de hoje. Fantásticos. Qual a explicação? A imagem do presidente, efetivamente sua grande força política, sua presença no cenário. Mas não se trata de carisma apenas, ou de uma empatia muito grande com a grande maioria da população. Há uma sintonia predominante. Em parte por falta de alternativa.

O quadro político, no qual todas as tendências sempre se refletem, não oferece qualquer alternativa. Enquanto isso não ocorrer - talvez não aconteça até 2010 - Lula permanecerá dominando totalmente o panorama nacional. Razões não faltam. A política salarial, uma delas. No tempo de FHC, todos os salários perdiam para a inflação do IBGE. Agora, exceto os do funcionalismo público, passaram pelo menos a empatar. Como tudo é relativo, já representa um avanço.

A hipótese de assumir um presidente em oposição a Lula, caso de José Serra, por exemplo, bloqueia uma deslocação de um lado para outro. Os que melhoraram com Luís Inácio da Silva temem um novo retrocesso. Este é um fator importante no esquema de análise. Mas isso não quer dizer que Lula, sozinho, possa eleger seu sucessor Aécio Neves, ou sucessora, Dilma Rousseff, com absoluta certeza.

Este é um caso de transferência de votos, processo sempre de difícil previsão. São raros os exemplos de transferência de apoio. Inclusive porque tal passagem não depende somente de quem transfere, mas também de quem recebe. Este aspecto, em matéria de política eleitoral, torna-se sempre um mistério, daí o fascínio e o enigma de que se reveste.

Às vezes assisto na Globo News debates coordenados pelo excelente William Waack, alguns focalizando a sucessão nos Estados Unidos. Intelectuais são chamados a participar e, por isso, tentam intelectualizar os debates e as razões que conduzem o processo numa direção ou outra. Esquecem que o voto, expressão de uma síntese, pode partir de uma lógica, mas não somente dela. Uma sensualidade ou para-sensualidade marca o impulso do eleitorado mais em favor de um do que de outro. No caso das prévias do Partido Democrata, o impulso na direção de Barak Obama superando o que se voltava para Hillary Clinton. Há um enigma no voto. Só pode ser desvendado na prática. Nunca na teoria.

Por isso, quando procuro encontrar a emoção como fator explicativo, recorro ao plano para-sensual, não exatamente para dividir a disputa entre sexos, mas para dizer que a sintonia, mesmo teórica, nesse plano, não encontra tradução na lógica. Porém o que os eleitores procuram no candidato é exatamente aquilo que no seu livro mais famoso Simone de Beauvior classificou de a exatidão de uma idéia. Não importa qual seja o conteúdo desta idéia. Mas na realidade sua fixação, como se encontrássemos, num instante, um argumento totalmente claro para nossas dúvidas e nossas idéias.

A publicidade universal baseia-se um pouco nesse conceito. A proposta de que cada um encontre seu próprio ego ou a idéia que faz ou gostaria de ter de si mesmo no modelo exposto. Não somente no que se refere às roupas e objetos, mas ao próprio comportamento humano. Para simplificar, pois a política, como a definiu De Gaulle, será sempre uma idéia firme e forte em torno de questões claras e simples. Algo (a política) extremamente complexo, de questões claras e simples. Algo (a política) extremamente complexo, dada a soma de interesses em jogo, mas cujas formulações serão sempre transparentes. Caso contrário, estar-se-á, por exemplo, fazendo filosofia. Mas não política.

Lula age instintivamente, é um político intuitivo, espontâneo, simples, natural. Não ameaça. Não tensiona. Não traz consigo proposta difícil de mudança. Ao contrário. Por isso permanece e permanecerá sempre firme, com popularidade bastante elevada até o final de seu mandato. Agora, se é capaz de vencer na sua sucessão é outro problema. Não foi feita ainda qualquer pesquisa sobre a transferência de sua imagem. Talvez não seja possível. Sua imagem pode ser algo muito próprio que não comporte divisões ou transferência de personalidade. Mas esta é uma pergunta para outubro de 2010. Portanto para daqui a 27 meses. Passa depressa.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Quando as esquerdas se dividem (Carlos Chagas - Tribuna da Imprensa)

BRASÍLA - Faz muito tempo que se contesta a divisão ideológica das nações em esquerda e direita, dadas às confusões que fazem os integrantes de um e de outro lado, mas, mesmo assim, certas diferenças permanecem inalteráveis. Quem luta pela permanência e até a ampliação dos direitos trabalhistas é da esquerda, assim como quem prega a livre concorrência entre valores e identidades distintas é da direita.

Feito o preâmbulo, e apesar da lambança que leva o governo Lula a patrocinar a farra dos especuladores, ou faz José Serra sustentar a redução do lucro dos bancos, vale transplantar a discussão teórica para a prática das eleições de outubro. Mais uma vez, as esquerdas apresentam-se divididas na maioria das grandes cidades onde serão escolhidos os prefeitos.

Em Porto Alegre, nada menos do que três candidatas e um candidato de esquerda, do PT, do Psol e do PC do B e do PSB, disputam os votos que a direita cobiça. No Rio, a candidata do PC do B defronta-se com candidatos do Psol, do PSB, do PV, do PDT e outros. Em Fortaleza é parecido, em Recife é igual, em Curitiba não parece diferente.

São Paulo será exceção? Vale marcar coluna do meio, porque Marta Suplicy, do PT, conquistou o apoio do PC do B, de Aldo Rebello, e de legendas esparsas do bloquinho, nem por isso parte das esquerdas deixa de dividir-se entre Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin. Salvo exceções, o resultado geral será o mesmo de sempre: o fracionamento de uns serve para eleger qualquer um representante dos outros.
Espremendo o caldo

Passadas as festas de São João, São Pedro e outros santos, volta o Congresso a dar quorum, esta semana e na próxima, mas a prazo fixo. A partir do dia 15 de julho, quando se inicia o recesso parlamentar, deputados e senadores tomam o rumo de seus estados para retornar a Brasília apenas a conta-gotas.

Deverão dedicar-se às campanhas municipais e permanecer nas bases mesmo depois da eleição de outubro, acompanhando e vigiando os resultados. A conseqüência é que apenas em novembro teremos votações importantes, salvo alguma crise ou conflito que ninguém deseja.

Interrompe-se a reforma tributária, permanece paralítica a reforma política, ficam para as calendas propostas capazes de beneficiar aposentados e pensionistas, bem como aquelas em condições de punir trabalhadores e assalariados.

A pergunta que se faz é se, depois de conhecidos e até proclamados os resultados das eleições municipais, haverá alguma alteração de vulto no equilíbrio das bancadas parlamentares. Porque se um determinado partido governista tiver a sorte de eleger prefeitos em diversas das grandes capitais, a conta será logo apresentada ao palácio do Planalto. No reverso da medalha, se for beneficiada alguma legenda da oposição, a cobrança não levará mais do que quinze minutos.

Tudo com vistas à sucessão presidencial de 2010. O PT joga na popularidade do presidente Lula para alimentar esperanças de uma candidatura própria, no caso, Dilma Rousseff. Já o PSDB antecipa algumas fichas do cacife de José Serra. Enquanto isso, o PMDB espera valorizar sua participação na mesa de jogo.
Os mudos não falam?

O exercício de certas funções, em especial próximas do poder, obriga seus ocupantes a um permanente silêncio. Assim vinha acontecendo desde o início do primeiro mandato de Lula com seu chefe de Gabinete, Gilberto Carvalho. Talvez o mais próximo auxiliar do presidente, conhecedor e artífice dos meandros do governo, neste fim de semana ele passou de mudo a falador. Falou a uma revista semanal e deixou dúvida fundamental em Brasília: por quê?

Passando numa lupa as declarações de Gilberto Carvalho, podem ser pinçadas algumas tentativas de explicação. Teria ele, propositadamente, deixado claro que o presidente Lula jamais foi amigo de José Dirceu? Ou que, no auge da crise do mensalão, seu chefe cogitou trocar a reeleição pelo compromisso de as oposições não levarem adiante um processo de impeachment?

Pretendeu mostrar um Lula humano, que se exasperou com o episódio dos dólares na cueca de um companheiro? Ou foi para sacramentar Dilma Rousseff como candidata em 2010? Quem sabe aproveitou a oportunidade para desmentir uma vez mais a hipótese do terceiro mandato, que não depende dele e nem do Lula?

Quem quiser que responda, mas despertou curiosidade a entrevista do assessor mais próximo do presidente, único que entra no seu gabinete a hora que quiser, sem bater na porta...
A vida dos pobres não anda boa

De vez em quando o episódio se repete aqui em Brasília, apesar de a capital apresentar, conforme as estatísticas, um dos melhores padrões de vida do País.

Temos aqui um jardim zoológico, por sinal dos mais completos, com leões, tigres, hipopótamos, girafas e mil outros espécimes do reino animal. Volta e meia, para alegria das crianças, a direção do estabelecimento procura enriquecê-lo com outros hóspedes, em especial dos mais comuns, como patos, marrecos, cisnes e outras penosas, postas às centenas num lago artificial.

Pois não foi nem a primeira nem será a última vez que, semana passada, sumiram quase todas. Terão voado para o Pantanal, temerosas do clima cada vez mais seco do Planalto Central?

Parece que não. Ao lado do Jardim Zoológico, separado por uma cerca, faz muito que se construiu um bairro popular, chamado de Candangolândia. Lá, apesar do traçado urbano, multiplicam-se os barracos e, com eles, os desempregados. Pois de quando em quanto, como agora, tarde da noite a turma atravessa a cerca e confisca as aves, cujo destino é a panela.

Conta-se a história de que tempos atrás, num período de maior crise, sumiram montes de pacas, capivaras e porcos do mato. Até mesmo quando uma girafa adoeceu e foi levada para a enfermaria, posta deitada e em repouso, no dia seguinte amanheceu carneada. São coisas que o bolsa-família ainda não conseguiu superar...