Sandoval Caju, alto, cabeleira cheia, paraibano de talento, depois de uma temporada no Rio, voltou para João Pessoa impressionando a província com um diáfano cartão de linho: Sandoval Caju, locutor da Rádio Relógio do Distrito Federal. A Rádio Relógio só dava as horas. Mas ele se tornou o maior radialista do Nordeste, na Rádio Tabajara da Paraíba.
Um dia, mudou-se para uma rádio de Alagoas, fez o primeiro grande programa de auditório lá e logo se candidatou a prefeito de Maceió. Ia para as praças todo vestido de branco e, de cima de um caminhão, começava:
- Vim de branco para ser claro!
Sandoval Caju
E tanto foi de branco e tanto foi claro que acabou ganhando as eleições e se elegendo prefeito de Maceió, inclusive com o apoio do alagoano marechal Floriano Peixoto, que já tinha morrido em 1895.
Marcou um comício em frente à estátua de Floriano Peixoto, em Maceió. A praça cheia, começou a falar e de repente abriu os braços largos: - Marechal Floriano, vós que sois o patrono da terra das Alagoas, dizei a este povo se estais ou não estais apoiando a candidatura de Sandoval Caju à prefeitura de Maceió.
A praça em silêncio, esperando. Sandoval, braços ao vento, insistia: - Respondei, marechal! Respondei!
Depois, a voz embargada, os olhos marejados de gratidão, gritou: - Obrigado, marechal! Muito obrigado! Quem cala, consente!
Ganhou a eleição.
Lula
Lula é o marechal Floriano do PT. Gravou um pronunciamento eleitoral, que mandou para todos os candidatos do partido. O mesmo para todos. Não diz nada e diz tudo. Diz que a vitória de um candidato do PT facilitará o entrosamento do prefeito do PT com o governo federal do PT.
No horário eleitoral na TV, dá um resultado patético. Lula entra no ar, não fala nada sobre o candidato, nem o nome, mas deixa a deixa no ar. E cada um vai aproveitando como quer e como pode. Um apoio psicodélico, porque é a mesma coisa que, fora da TV, Lula diz aos candidatos aliados.
No Rio, o candidato do PT, um rapaz sério, íntegro, o jovem Molon, órfão abandonado pelas pesquisas, pelo partido e pelas esquerdas, põe no ar a mensagem marciana de Lula e, quando Lula termina, diz comovido: - Obrigado presidente Lula pelo seu apoio!
Exatamente como Sandoval Caju agradecendo o apoio do marechal Floriano. Deviam todos pagar direitos autorais ao talento de Sandoval Caju.
Crivela
Desde o começo, avisei aqui. O senador Crivela, o "bispo" que nem padre foi, com seu ar desvalido de agente funerário, é apenas uma peça do projeto político do tio, patrono e financiador Edir Macedo. Será sempre candidato a qualquer coisa, para ir emboçando o "cimento social" da futura candidatura presidencial do proprietário da Igreja Universal.
Quem duvidava não pode duvidar mais. O audacioso Edir Macedo, governando seu fabuloso e dizimal império financeiro lá de Miami, lançou há algum tempo sua "biografia", que "vendeu" um milhão de exemplares.
Agora, acaba de apresentar em livro o programa de sua candidatura à presidência da Republica (não se sabe se já agora em 2010 ou em 2014): "Plano de Poder - Deus, os cristãos e a política".
Edir
No livro-programa, diz Edir, o faturoso camelô de Jesus Cristo:
1 - "Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional".
2 - Ele "estima em 40 milhões a comunidade de evangélicos no País": "A potencialidade dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer escalão, municipal, estadual ou federal" (Tatiana Farah, "O Globo"). Quem conhece a história sabe. O fascismo sempre surge dessa forma.
Dantas
O Brasil sempre foi assim, mas agora ficou inigualável: nunca os poderosos puderam tanto. A Polícia Federal fez uma profunda e até agora indesmentível investigação sobre os misteriosos negócios de Daniel Dantas, que alguns dizem mandar no Executivo, Legislativo e Judiciário.
E o que aconteceu? Daniel Dantas passou 72 horas preso. Depois, explodiu uma bomba atômica no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. O presidente da Abin, o respeitado e inatacável Paulo Lacerda, caiu. O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Correa, de íntegra biografia, não sai mais da CPI dos Grampos, tentando explicar o inexplicável.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, foi monitorado, grampeado e obrigado a bater boca na porta do Supremo. O senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, foi flagrado com o presidente do Supremo numa ligação que, graças aos céus, era tão inocente como conversa de freiras. Imaginem se não fosse. O País balançava.
E nova manchete na "Folha": "PF não consegue abrir arquivos de Dantas - Criptografado, o conteúdo dos computadores apreendidos no apartamento do banqueiro no Rio não é acessado pela polícia".
Esse Dantas ou é filho de Mãe Menininha ou tem parte com satanás
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
O apoio de Floriano (Sebastião Nery - Tribuna da Imprensa)
Sandoval Caju, alto, cabeleira cheia, paraibano de talento, depois de uma temporada no Rio, voltou para João Pessoa impressionando a província com um diáfano cartão de linho: Sandoval Caju, locutor da Rádio Relógio do Distrito Federal. A Rádio Relógio só dava as horas. Mas ele se tornou o maior radialista do Nordeste, na Rádio Tabajara da Paraíba.
Um dia, mudou-se para uma rádio de Alagoas, fez o primeiro grande programa de auditório lá e logo se candidatou a prefeito de Maceió. Ia para as praças todo vestido de branco e, de cima de um caminhão, começava:
- Vim de branco para ser claro!
Sandoval Caju
E tanto foi de branco e tanto foi claro que acabou ganhando as eleições e se elegendo prefeito de Maceió, inclusive com o apoio do alagoano marechal Floriano Peixoto, que já tinha morrido em 1895.
Marcou um comício em frente à estátua de Floriano Peixoto, em Maceió. A praça cheia, começou a falar e de repente abriu os braços largos: - Marechal Floriano, vós que sois o patrono da terra das Alagoas, dizei a este povo se estais ou não estais apoiando a candidatura de Sandoval Caju à prefeitura de Maceió.
A praça em silêncio, esperando. Sandoval, braços ao vento, insistia: - Respondei, marechal! Respondei!
Depois, a voz embargada, os olhos marejados de gratidão, gritou: - Obrigado, marechal! Muito obrigado! Quem cala, consente!
Ganhou a eleição.
Lula
Lula é o marechal Floriano do PT. Gravou um pronunciamento eleitoral, que mandou para todos os candidatos do partido. O mesmo para todos. Não diz nada e diz tudo. Diz que a vitória de um candidato do PT facilitará o entrosamento do prefeito do PT com o governo federal do PT.
No horário eleitoral na TV, dá um resultado patético. Lula entra no ar, não fala nada sobre o candidato, nem o nome, mas deixa a deixa no ar. E cada um vai aproveitando como quer e como pode. Um apoio psicodélico, porque é a mesma coisa que, fora da TV, Lula diz aos candidatos aliados.
No Rio, o candidato do PT, um rapaz sério, íntegro, o jovem Molon, órfão abandonado pelas pesquisas, pelo partido e pelas esquerdas, põe no ar a mensagem marciana de Lula e, quando Lula termina, diz comovido: - Obrigado presidente Lula pelo seu apoio!
Exatamente como Sandoval Caju agradecendo o apoio do marechal Floriano. Deviam todos pagar direitos autorais ao talento de Sandoval Caju.
Crivela
Desde o começo, avisei aqui. O senador Crivela, o "bispo" que nem padre foi, com seu ar desvalido de agente funerário, é apenas uma peça do projeto político do tio, patrono e financiador Edir Macedo. Será sempre candidato a qualquer coisa, para ir emboçando o "cimento social" da futura candidatura presidencial do proprietário da Igreja Universal.
Quem duvidava não pode duvidar mais. O audacioso Edir Macedo, governando seu fabuloso e dizimal império financeiro lá de Miami, lançou há algum tempo sua "biografia", que "vendeu" um milhão de exemplares.
Agora, acaba de apresentar em livro o programa de sua candidatura à presidência da Republica (não se sabe se já agora em 2010 ou em 2014): "Plano de Poder - Deus, os cristãos e a política".
Edir
No livro-programa, diz Edir, o faturoso camelô de Jesus Cristo:
1 - "Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional".
2 - Ele "estima em 40 milhões a comunidade de evangélicos no País": "A potencialidade dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer escalão, municipal, estadual ou federal" (Tatiana Farah, "O Globo"). Quem conhece a história sabe. O fascismo sempre surge dessa forma.
Dantas
O Brasil sempre foi assim, mas agora ficou inigualável: nunca os poderosos puderam tanto. A Polícia Federal fez uma profunda e até agora indesmentível investigação sobre os misteriosos negócios de Daniel Dantas, que alguns dizem mandar no Executivo, Legislativo e Judiciário.
E o que aconteceu? Daniel Dantas passou 72 horas preso. Depois, explodiu uma bomba atômica no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. O presidente da Abin, o respeitado e inatacável Paulo Lacerda, caiu. O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Correa, de íntegra biografia, não sai mais da CPI dos Grampos, tentando explicar o inexplicável.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, foi monitorado, grampeado e obrigado a bater boca na porta do Supremo. O senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, foi flagrado com o presidente do Supremo numa ligação que, graças aos céus, era tão inocente como conversa de freiras. Imaginem se não fosse. O País balançava.
E nova manchete na "Folha": "PF não consegue abrir arquivos de Dantas - Criptografado, o conteúdo dos computadores apreendidos no apartamento do banqueiro no Rio não é acessado pela polícia".
Esse Dantas ou é filho de Mãe Menininha ou tem parte com satanás
Sandoval Caju, alto, cabeleira cheia, paraibano de talento, depois de uma temporada no Rio, voltou para João Pessoa impressionando a província com um diáfano cartão de linho: Sandoval Caju, locutor da Rádio Relógio do Distrito Federal. A Rádio Relógio só dava as horas. Mas ele se tornou o maior radialista do Nordeste, na Rádio Tabajara da Paraíba.
Um dia, mudou-se para uma rádio de Alagoas, fez o primeiro grande programa de auditório lá e logo se candidatou a prefeito de Maceió. Ia para as praças todo vestido de branco e, de cima de um caminhão, começava:
- Vim de branco para ser claro!
Sandoval Caju
E tanto foi de branco e tanto foi claro que acabou ganhando as eleições e se elegendo prefeito de Maceió, inclusive com o apoio do alagoano marechal Floriano Peixoto, que já tinha morrido em 1895.
Marcou um comício em frente à estátua de Floriano Peixoto, em Maceió. A praça cheia, começou a falar e de repente abriu os braços largos: - Marechal Floriano, vós que sois o patrono da terra das Alagoas, dizei a este povo se estais ou não estais apoiando a candidatura de Sandoval Caju à prefeitura de Maceió.
A praça em silêncio, esperando. Sandoval, braços ao vento, insistia: - Respondei, marechal! Respondei!
Depois, a voz embargada, os olhos marejados de gratidão, gritou: - Obrigado, marechal! Muito obrigado! Quem cala, consente!
Ganhou a eleição.
Lula
Lula é o marechal Floriano do PT. Gravou um pronunciamento eleitoral, que mandou para todos os candidatos do partido. O mesmo para todos. Não diz nada e diz tudo. Diz que a vitória de um candidato do PT facilitará o entrosamento do prefeito do PT com o governo federal do PT.
No horário eleitoral na TV, dá um resultado patético. Lula entra no ar, não fala nada sobre o candidato, nem o nome, mas deixa a deixa no ar. E cada um vai aproveitando como quer e como pode. Um apoio psicodélico, porque é a mesma coisa que, fora da TV, Lula diz aos candidatos aliados.
No Rio, o candidato do PT, um rapaz sério, íntegro, o jovem Molon, órfão abandonado pelas pesquisas, pelo partido e pelas esquerdas, põe no ar a mensagem marciana de Lula e, quando Lula termina, diz comovido: - Obrigado presidente Lula pelo seu apoio!
Exatamente como Sandoval Caju agradecendo o apoio do marechal Floriano. Deviam todos pagar direitos autorais ao talento de Sandoval Caju.
Crivela
Desde o começo, avisei aqui. O senador Crivela, o "bispo" que nem padre foi, com seu ar desvalido de agente funerário, é apenas uma peça do projeto político do tio, patrono e financiador Edir Macedo. Será sempre candidato a qualquer coisa, para ir emboçando o "cimento social" da futura candidatura presidencial do proprietário da Igreja Universal.
Quem duvidava não pode duvidar mais. O audacioso Edir Macedo, governando seu fabuloso e dizimal império financeiro lá de Miami, lançou há algum tempo sua "biografia", que "vendeu" um milhão de exemplares.
Agora, acaba de apresentar em livro o programa de sua candidatura à presidência da Republica (não se sabe se já agora em 2010 ou em 2014): "Plano de Poder - Deus, os cristãos e a política".
Edir
No livro-programa, diz Edir, o faturoso camelô de Jesus Cristo:
1 - "Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional".
2 - Ele "estima em 40 milhões a comunidade de evangélicos no País": "A potencialidade dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer escalão, municipal, estadual ou federal" (Tatiana Farah, "O Globo"). Quem conhece a história sabe. O fascismo sempre surge dessa forma.
Dantas
O Brasil sempre foi assim, mas agora ficou inigualável: nunca os poderosos puderam tanto. A Polícia Federal fez uma profunda e até agora indesmentível investigação sobre os misteriosos negócios de Daniel Dantas, que alguns dizem mandar no Executivo, Legislativo e Judiciário.
E o que aconteceu? Daniel Dantas passou 72 horas preso. Depois, explodiu uma bomba atômica no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. O presidente da Abin, o respeitado e inatacável Paulo Lacerda, caiu. O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Correa, de íntegra biografia, não sai mais da CPI dos Grampos, tentando explicar o inexplicável.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, foi monitorado, grampeado e obrigado a bater boca na porta do Supremo. O senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, foi flagrado com o presidente do Supremo numa ligação que, graças aos céus, era tão inocente como conversa de freiras. Imaginem se não fosse. O País balançava.
E nova manchete na "Folha": "PF não consegue abrir arquivos de Dantas - Criptografado, o conteúdo dos computadores apreendidos no apartamento do banqueiro no Rio não é acessado pela polícia".
Esse Dantas ou é filho de Mãe Menininha ou tem parte com satanás
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
A crise financeira e as eleições americanas (Pedro do Coutto - Tribuna da Imprensa)
Quais poderão ser os reflexos da crise financeira aberta com a inadimplência registrada nos fundos imobiliários Fannie May e Freddie Mac, agravada com a falta de liquidez da corretora AIG, nas eleições americanas de 4 de novembro? Vão se fazer sentir, pois não existe ação sem reação e as posições dos candidatos Barack Obama e John McCain são divergentes em torno do tema, bastante complexo. Os dois pontos de vista foram bem focalizados pelas reportagens de Marília Martins, "O Globo", e de Andréa Murta, "Folha de S. Paulo", as duas publicadas no dia 17 de setembro.
McCain atacou fortemente os grandes gatos de Wall Street, Obama cobrou do governo George Bush um acompanhamento mais próximo e atento das operações de financiamento bancário, cujos resultados, quando negativos, colocam em risco a economia de centenas de milhões de pessoas. Isso nos EUA, que possuem 300 milhões de habitantes.
As conseqüências, entretanto, são também mundiais. As pesquisas eleitorais seguramente vão revelar nos próximos dias se as intenções de voto, agora, tornaram-se ou não diferentes daquelas verificadas antes da explosão. E não só da explosão, mas da investida estatal feita por Washington na tentativa de conter efeitos mais profundos da descapitalização que se generalizou no mercado e que, sem dúvida, beneficiou alguns poucos, já que não existe débito sem crédito, princípio universal do sistema financeiro. A estatização projeta-se nitidamente no crédito de 85 bilhões de dólares aberto pelo Tesouro em favor da AIG. Os bancos particulares recusaram-se a socorrer a supercorretora. Coisas da vida. Aliás, é sempre assim. Os rios correm para o mar, como se diz.
Se o tema inadimplência e falta de liquidez para nós é complexo a distância, imagine-se para os investidores norte-americanos, que estão com suas economias diretamente vinculadas à tempestade que, sejam quais forem as medidas, não pode ser dissipada a curto prazo. O volume de dinheiro é enorme. A este respeito, os professores José Luís Oreiro e Gabriel Coelho Squeff publicaram artigo primoroso, substancial e elucidativo, na edição de quarta-feira do "Valor", o mais completo jornal econômico do País atualmente.
Confrontaram o desabamento de 2008 com o craque de 1929 e percorreram o tempo entre ontem e hoje desenvolvendo uma análise extremamente inteligente. Se em 1929, governo Herbert Hoover, que perdeu a Casa Branca para Franklin Roosevelt em 32, fosse procurada a estrada estatal para encontrar a luz no fim do túnel, não teria havido milhares e milhares de falências, desabamento da Bolsa de Nova Iorque, milhões de desempregados, gigantescas filas públicas de distribuição de alimentos. Não teria havido fome e frio, abandono do sonho americano e solidão. Mas isso pertence ao passado.
No presente, Luís Oreiro e Gabriel Squeff revelam a verdadeira extensão da crise. Não se trata somente de o Tesouro injetar 200 bilhões nas contas em aberto do Freddie Mac e da Fannie May, além da intervenção estatal de 85 bilhões de dólares na AIG. A profundidade é várias vezes maior. O Lehman Brothers e o Merryl Linch são exemplos fortes. Não se trata apenas da absorção, por 44 bilhões, deste último pelo Bank of America.
Trata-se da flutuação de ativos que parecem fortes no papel, mas são movediços em padrões monetários de mercado. Uma quantidade enorme de letras imobiliárias não resgatadas nos prazos lastreia virtualmente esses ativos. Diminuíram, inclusive, porque se baseavam no valor das residências adquiridas a prazo. Como houve inadimplência, a oferta de imóveis cresceu. Em conseqüência, seu valor diminuiu.
A crise se ampliou. Squeff e Oreiro destacam a importância essencial da curva feita à esquerda por Washington, impensável em outros tempos. Tão impensável, talvez, como se alguém previsse, há vinte anos, uma abertura de mercado na China de Pequim. Tudo bem, mas tem um preço interno. Dentro do princípio de que não existe mesmo débito sem crédito, e vice-versa, a injeção de recursos do estado se reflete no déficit fiscal.
Os articulistas do "Valor" assinalam que a dívida pública americana é de 5 trilhões de dólares no momento. Com o socorro, que termina inevitavelmente numa renúncia fiscal, a Casa Branca pode salvar os poupadores, mas segue o trajeto adotado rumo a um déficit fiscal de outros 5 trilhões. Renúncia tributária e dívida interna podem representar um déficit fiscal de 10 trilhões de dólares, três quartos do PIB do país.
E as eleições? Como reagirá o eleitorado dos Estados Unidos? A crise pesa a favor ou contra Obama ou McCain? Um enigma. Mas vale pensar sobre o assunto. Sobretudo porque em 1956 dois acontecimentos internacionais mudaram o rumo das eleições. Adlai Stevenson, democrata, vinha bem à frente de Eisenhower, republicano. Mas faltando três semanas para as urnas, numa ação conjunta, Inglaterra, França e Israel invadem Suez.
Nasser ameaça dinamitar o canal e cortar o fornecimento de petróleo ao Ocidente. Dois dias depois, a URSS de Kruschev invade e massacra a Hungria, que tentava libertar-se de Moscou. Os Estados Unidos condenam as duas ações. O mundo poderia ir pelos ares. Os americanos preferiram reeleger o herói da invasão da Normandia em 1944.
O rumo da história mudou. E agora?
McCain atacou fortemente os grandes gatos de Wall Street, Obama cobrou do governo George Bush um acompanhamento mais próximo e atento das operações de financiamento bancário, cujos resultados, quando negativos, colocam em risco a economia de centenas de milhões de pessoas. Isso nos EUA, que possuem 300 milhões de habitantes.
As conseqüências, entretanto, são também mundiais. As pesquisas eleitorais seguramente vão revelar nos próximos dias se as intenções de voto, agora, tornaram-se ou não diferentes daquelas verificadas antes da explosão. E não só da explosão, mas da investida estatal feita por Washington na tentativa de conter efeitos mais profundos da descapitalização que se generalizou no mercado e que, sem dúvida, beneficiou alguns poucos, já que não existe débito sem crédito, princípio universal do sistema financeiro. A estatização projeta-se nitidamente no crédito de 85 bilhões de dólares aberto pelo Tesouro em favor da AIG. Os bancos particulares recusaram-se a socorrer a supercorretora. Coisas da vida. Aliás, é sempre assim. Os rios correm para o mar, como se diz.
Se o tema inadimplência e falta de liquidez para nós é complexo a distância, imagine-se para os investidores norte-americanos, que estão com suas economias diretamente vinculadas à tempestade que, sejam quais forem as medidas, não pode ser dissipada a curto prazo. O volume de dinheiro é enorme. A este respeito, os professores José Luís Oreiro e Gabriel Coelho Squeff publicaram artigo primoroso, substancial e elucidativo, na edição de quarta-feira do "Valor", o mais completo jornal econômico do País atualmente.
Confrontaram o desabamento de 2008 com o craque de 1929 e percorreram o tempo entre ontem e hoje desenvolvendo uma análise extremamente inteligente. Se em 1929, governo Herbert Hoover, que perdeu a Casa Branca para Franklin Roosevelt em 32, fosse procurada a estrada estatal para encontrar a luz no fim do túnel, não teria havido milhares e milhares de falências, desabamento da Bolsa de Nova Iorque, milhões de desempregados, gigantescas filas públicas de distribuição de alimentos. Não teria havido fome e frio, abandono do sonho americano e solidão. Mas isso pertence ao passado.
No presente, Luís Oreiro e Gabriel Squeff revelam a verdadeira extensão da crise. Não se trata somente de o Tesouro injetar 200 bilhões nas contas em aberto do Freddie Mac e da Fannie May, além da intervenção estatal de 85 bilhões de dólares na AIG. A profundidade é várias vezes maior. O Lehman Brothers e o Merryl Linch são exemplos fortes. Não se trata apenas da absorção, por 44 bilhões, deste último pelo Bank of America.
Trata-se da flutuação de ativos que parecem fortes no papel, mas são movediços em padrões monetários de mercado. Uma quantidade enorme de letras imobiliárias não resgatadas nos prazos lastreia virtualmente esses ativos. Diminuíram, inclusive, porque se baseavam no valor das residências adquiridas a prazo. Como houve inadimplência, a oferta de imóveis cresceu. Em conseqüência, seu valor diminuiu.
A crise se ampliou. Squeff e Oreiro destacam a importância essencial da curva feita à esquerda por Washington, impensável em outros tempos. Tão impensável, talvez, como se alguém previsse, há vinte anos, uma abertura de mercado na China de Pequim. Tudo bem, mas tem um preço interno. Dentro do princípio de que não existe mesmo débito sem crédito, e vice-versa, a injeção de recursos do estado se reflete no déficit fiscal.
Os articulistas do "Valor" assinalam que a dívida pública americana é de 5 trilhões de dólares no momento. Com o socorro, que termina inevitavelmente numa renúncia fiscal, a Casa Branca pode salvar os poupadores, mas segue o trajeto adotado rumo a um déficit fiscal de outros 5 trilhões. Renúncia tributária e dívida interna podem representar um déficit fiscal de 10 trilhões de dólares, três quartos do PIB do país.
E as eleições? Como reagirá o eleitorado dos Estados Unidos? A crise pesa a favor ou contra Obama ou McCain? Um enigma. Mas vale pensar sobre o assunto. Sobretudo porque em 1956 dois acontecimentos internacionais mudaram o rumo das eleições. Adlai Stevenson, democrata, vinha bem à frente de Eisenhower, republicano. Mas faltando três semanas para as urnas, numa ação conjunta, Inglaterra, França e Israel invadem Suez.
Nasser ameaça dinamitar o canal e cortar o fornecimento de petróleo ao Ocidente. Dois dias depois, a URSS de Kruschev invade e massacra a Hungria, que tentava libertar-se de Moscou. Os Estados Unidos condenam as duas ações. O mundo poderia ir pelos ares. Os americanos preferiram reeleger o herói da invasão da Normandia em 1944.
O rumo da história mudou. E agora?
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Paulicéia desvairada (Carlos Chagas)
BRASÍLIA - O presidente Lula viajou ontem à noite para Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas de olho em São Paulo, onde estará sábado para mais uma rodada de carreatas e comícios em favor da candidatura de Marta Suplicy à prefeitura da capital.
Lula está feliz com o acirramento dos ânimos entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, já acreditando na hipótese da vitória da candidata do PT no primeiro turno. A eleição em São Paulo é simbólica e pode antecipar o enfraquecimento de José Serra como candidato da oposição à presidência da República, em 2010.
Muita gente se pergunta como os tucanos paulistas deixaram acontecer a lambança que divide Kassab e Alckmin. As responsabilidades dividem-se igualitariamente: o açodamento do ex-governador em lançar-se antes de buscar entender-se com Serra, de um lado, e de outro a teimosia do governador em favorecer o atual prefeito, do DEM, contra o seu próprio partido.
A temperatura subiu nos últimos dias, com Geraldo Alckmin agredindo Kassab nos programas de propaganda gratuita. O resultado está sendo o empate técnico entre eles e a prevalência de Marta nas preferências populares, por certo que inflado o seu balão pela cada vez maior popularidade de Lula. Mesmo se houver segundo turno, a previsão é de que o derrotado não ajudará o segundo colocado, seja Kassab, seja Alckmin, tornando-se viável aquilo que até semanas atrás parecia impossível, a vitória de Marta no segundo turno.
O Rio em chamas
O Rio repete São Paulo em termos de desvario eleitoral. Eduardo Paes, candidato do governador Sérgio Cabral, passou o senador Marcelo Crivella, que por sua vez investe contra o adversário mostrando na televisão o que seriam suas incoerências. Porque, como deputado, na CPI do Mensalão, Paes não poupou o presidente Lula, afirmando dispor de provas sobre corrupção no governo.
Quem chutou o pau da barraca, porém, foi o prefeito César Maia. Para ajudar sua candidata, Solange Amaral, ele acusou a Igreja Universal, da qual Crivella é bispo, da prática de lavagem de dinheiro, inclusive do narcotráfico. Endossou antigas acusações de um bispo dissidente e obriga Crivella a defender-se.
Delineia-se o quadro para 5 de outubro com a probabilidade de um segundo turno, no caso, entre Eduardo Paes e Marcelo Crivella. As esquerdas, mais do que divididas, carecem de condições para servir de fiel da balança, pois onde estiver Fernando Gabeira não estarão Jandira Feghalli e Chico Alencar.
A presença de tropas do Exército e dos Fuzileiros Navais nas favelas da antiga capital contribui para a preservação da ordem, mas não favorece nenhum candidato à prefeitura. Sérgio Cabral jogará todas as fichas em Eduardo Paes, que se for eleito favorecerá a inclusão do governador no rol dos pretendentes do PMDB à indicação para companheiro de chapa de Dilma Rousseff, em 2010. Melhor ainda se vingar a tese do terceiro mandato para o presidente Lula, tendo em vista as dificuldades de saúde do vice-presidente José Alencar.
Um cheirinho de fascismo
Apesar de rejeitado em sua primeira versão pelo presidente Lula, o Plano Nacional de Defesa vem tendo alguns de seus aspectos revelados e discutidos. Seu principal artífice, o ministro Mangabeira Unger, não resiste em fazer propaganda das polêmicas sugestões.
A mais recente delas envolve a criação de uma estranha Força de Reserva Maleável, a ser constituída por todos os rapazes e moças que completarem 18 anos e forem dispensados do serviço militar obrigatório. Quer o ministro do Futuro enquadrar a juventude na obrigação de prestar serviço civil alternativo, tanto os universitários quanto os que estiverem cursando o segundo grau.
Eles seriam organizados em batalhões e enviados para as regiões do País onde se registra maior pobreza. Uns prestariam auxílio em postos de saúde, outros construiriam casas populares, aqueles ajudariam a alfabetizar a população, estes cuidariam da agricultura.
Com todo respeito ao filósofo bilíngüe e binacional, mas isso cheira ao fascismo dos anos trinta e quarenta. O Plano Nacional de Defesa não especifica se essa numerosa tropa precisará usar uniforme nem de onde sairão os recursos para tamanha movimentação.
Estatizando os prejuízos
Quem anda feliz é o sociólogo, reivindicando o galardão de precursor da moderna economia mundial, aquela que mandam privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Anos atrás, na iminência da quebra de alguns bancos, por má gestão e incompetência, o então presidente Fernando Henrique Cardoso criou o Proer, sinecura que injetou bilhões no setor especulativo. Enquanto privatizava a Vale do Rio Doce a preço de banana podre e com recursos do BNDES, sem esquecer as telecomunicações, os portos e a maioria das ações da Petrobras, o governo socorreu a incúria privada com dinheiro público.
Pois não é exatamente o que acontece agora nos Estados Unidos? O pretexto é o mesmo: evitar que sofram milhões de investidores, correntistas ou depositantes. Deixar que o mercado cuide de tudo, só quando as coisas vão dando certo e favorecem uns poucos.
Lula está feliz com o acirramento dos ânimos entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, já acreditando na hipótese da vitória da candidata do PT no primeiro turno. A eleição em São Paulo é simbólica e pode antecipar o enfraquecimento de José Serra como candidato da oposição à presidência da República, em 2010.
Muita gente se pergunta como os tucanos paulistas deixaram acontecer a lambança que divide Kassab e Alckmin. As responsabilidades dividem-se igualitariamente: o açodamento do ex-governador em lançar-se antes de buscar entender-se com Serra, de um lado, e de outro a teimosia do governador em favorecer o atual prefeito, do DEM, contra o seu próprio partido.
A temperatura subiu nos últimos dias, com Geraldo Alckmin agredindo Kassab nos programas de propaganda gratuita. O resultado está sendo o empate técnico entre eles e a prevalência de Marta nas preferências populares, por certo que inflado o seu balão pela cada vez maior popularidade de Lula. Mesmo se houver segundo turno, a previsão é de que o derrotado não ajudará o segundo colocado, seja Kassab, seja Alckmin, tornando-se viável aquilo que até semanas atrás parecia impossível, a vitória de Marta no segundo turno.
O Rio em chamas
O Rio repete São Paulo em termos de desvario eleitoral. Eduardo Paes, candidato do governador Sérgio Cabral, passou o senador Marcelo Crivella, que por sua vez investe contra o adversário mostrando na televisão o que seriam suas incoerências. Porque, como deputado, na CPI do Mensalão, Paes não poupou o presidente Lula, afirmando dispor de provas sobre corrupção no governo.
Quem chutou o pau da barraca, porém, foi o prefeito César Maia. Para ajudar sua candidata, Solange Amaral, ele acusou a Igreja Universal, da qual Crivella é bispo, da prática de lavagem de dinheiro, inclusive do narcotráfico. Endossou antigas acusações de um bispo dissidente e obriga Crivella a defender-se.
Delineia-se o quadro para 5 de outubro com a probabilidade de um segundo turno, no caso, entre Eduardo Paes e Marcelo Crivella. As esquerdas, mais do que divididas, carecem de condições para servir de fiel da balança, pois onde estiver Fernando Gabeira não estarão Jandira Feghalli e Chico Alencar.
A presença de tropas do Exército e dos Fuzileiros Navais nas favelas da antiga capital contribui para a preservação da ordem, mas não favorece nenhum candidato à prefeitura. Sérgio Cabral jogará todas as fichas em Eduardo Paes, que se for eleito favorecerá a inclusão do governador no rol dos pretendentes do PMDB à indicação para companheiro de chapa de Dilma Rousseff, em 2010. Melhor ainda se vingar a tese do terceiro mandato para o presidente Lula, tendo em vista as dificuldades de saúde do vice-presidente José Alencar.
Um cheirinho de fascismo
Apesar de rejeitado em sua primeira versão pelo presidente Lula, o Plano Nacional de Defesa vem tendo alguns de seus aspectos revelados e discutidos. Seu principal artífice, o ministro Mangabeira Unger, não resiste em fazer propaganda das polêmicas sugestões.
A mais recente delas envolve a criação de uma estranha Força de Reserva Maleável, a ser constituída por todos os rapazes e moças que completarem 18 anos e forem dispensados do serviço militar obrigatório. Quer o ministro do Futuro enquadrar a juventude na obrigação de prestar serviço civil alternativo, tanto os universitários quanto os que estiverem cursando o segundo grau.
Eles seriam organizados em batalhões e enviados para as regiões do País onde se registra maior pobreza. Uns prestariam auxílio em postos de saúde, outros construiriam casas populares, aqueles ajudariam a alfabetizar a população, estes cuidariam da agricultura.
Com todo respeito ao filósofo bilíngüe e binacional, mas isso cheira ao fascismo dos anos trinta e quarenta. O Plano Nacional de Defesa não especifica se essa numerosa tropa precisará usar uniforme nem de onde sairão os recursos para tamanha movimentação.
Estatizando os prejuízos
Quem anda feliz é o sociólogo, reivindicando o galardão de precursor da moderna economia mundial, aquela que mandam privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Anos atrás, na iminência da quebra de alguns bancos, por má gestão e incompetência, o então presidente Fernando Henrique Cardoso criou o Proer, sinecura que injetou bilhões no setor especulativo. Enquanto privatizava a Vale do Rio Doce a preço de banana podre e com recursos do BNDES, sem esquecer as telecomunicações, os portos e a maioria das ações da Petrobras, o governo socorreu a incúria privada com dinheiro público.
Pois não é exatamente o que acontece agora nos Estados Unidos? O pretexto é o mesmo: evitar que sofram milhões de investidores, correntistas ou depositantes. Deixar que o mercado cuide de tudo, só quando as coisas vão dando certo e favorecem uns poucos.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
A manha do barão (Sebastião Nery)
Mario Rodrigues, pai do Nelson Rodrigues, era jornalista do "Correio da Manhã", no Rio. Acusou a mulher do presidente Epitácio Pessoa (1919-1922) de ter se vendido aos usineiros de Pernambuco em troca de um colar de pérolas. Foi preso e, quando saiu, demitido.
Fundou "A Manhã". Não queria os militares no poder:
- Os tenentes (de 1922, 24) querem tomar o governo porque dizem respeitar os dinheiros públicos. Seria o caso de se fazer uma experiência com os capuchinhos e as irmãs de caridade.
Defendia o governo de Artur Bernardes (1922- 26) e o estado de sítio. Fazia sucesso a coluna "Amanhã Tem Mais", de um jovem humorista gaúcho, saído de "O Globo", Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Apporelly, depois o incomparavel Barão de Itararé, que um dia lhe disse:
- Mario, fora do governo sua reputação é a pior possível.
- Sossegue, meu filho. No jornalismo, é melhor ter má reputação do que não ter reputação nenhuma.
Mario Rodrigues
Uma tarde, muito calor na redação, Apporelly disse a Mario:
- Vamos tomar alguma coisa?
- De quem?
Um ano depois de inaugurado o jornal, as oficinas entraram em greve, por falta de pagamento. Mario foi a Belo Horizonte e pediu 80 contos a Mello Viana, presidente (governador) do estado. Mello Viana deu. Mario pensou que aquele era seu dia de sorte, entrou em um cassino, jogou tudo, perdeu tudo. Desesperado, voltou para o Rio, disse a Apporelly:
- Sou um canalha, tirei o pão da boca de meus filhos. Vou me matar.
- Doutor Mario, conhece a "teoria do dá"? Vai lá e pede de novo.
- Você acha?
- Quem dá uma vez, dá duas.
Mario Rodrigues voltou ao Palácio da Liberdade e pediu mais 80 contos a Mello Viana que, sabendo que ele queria se matar, deu mais 80 contos. Pensando recuperar o primeiro dinheiro, Mario voltou ao Cassino do Bomfim e perdeu tudo de novo. Foi uma tragédia. Agora, ia se matar.
Mello Viana
No Rio, tentou pular da janela do quarto andar do hotel onde Apporelly morava. Apporelly impediu. E voltou à "teoria do dá":
- Doutor Mario, escute. Quem dá uma e dá duas, dá três. Se ele não tivesse dado uma, não dava duas nem três. Deu, dá. Vai lá e pede de novo.
Mario foi e, sob ameaça de ser posto na cadeia se voltasse ao cassino, conseguiu voltar com o dinheiro. Abraçava Appporelly:
- Meu filho, você é um gênio. Um gênio!
- Doutor Mario, agora bem que o senhor podia me pagar. Faz um ano que eu trabalho e não recebo nada.
- Meu filho, quem dá um ano de trabalho de graça, dá dois e dá três. Se você não tivesse dado um, não dava dois nem três. Mas deu, dá.
Apporelly saiu e fundou "A Manha", "um jornal de ataques... de riso".
O primeiro número saiu atrasado para que os leitores pagassem em dobro. Não tinha expediente: "Jornal sério não vive de expediente". No segundo número, fez o primeiro aniversário, "para ganhar a credibilidade do leitor".
Ipojuca Pontes
Ótimas histórias, não são? Você, leitor, ainda não viu nada. Hoje, às 20 horas, na Livraria da Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá, 572), o jornalista e cineasta Ipojuca Pontes lança "A Manha do Barão - Confissões de bom e mau humor", uma peça de teatro que é um longo, magnífico, irresistível monólogo do gênio do humor brasileiro, o Barão de Itararé.
Ipojuca teve a sorte de ser vizinho do Barão, na Praça São Salvador, no Flamengo, Rio, e conversar muito com ele, antes de ele morrer, em 27 de novembro de 71 (nasceu em São Leopoldo, RG, em 1895). Depois, procurou o irmão Edecio, os filhos. Em novembro de 72, em um sebo de São Paulo, encontrou a coleção completa de "A Manha". Comprou na hora.
Chico Anisio
E também conseguiu uma coleção dos "Almanahques", a revista do Barão, que acabou eleito vereador do Rio pelo Partido Comunista em 1947 e logo depois cassado e preso, com a cassação do PCB pelo governo Dutra.
Só falta agora o Ipojuca entregar a peça ao outro gênio do humor brasileiro, o Chico Anísio, para vir o sucesso certo, que virá.
Não vou, não posso, contar o livro todo. Mas não há brasileiro que não conheça "uma do Barão", suas frases perfeitas, definitivas, inesquecíveis:
1 - Na Faculdade de Medicina (fez só três anos, no Rio Grande), o examinador, irritado com suas respostas zombeteiras, lhe perguntou:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro. Dois meus e dois seus. A menos que o senhor seja anormal.
Foi reprovado e abandonou.
Prestes
2 - Na ditadura de Vargas, só o chamava de G.Tulio Dor Nelles Vargas. Dizia: O Estado Novo é o estado a que chegamos. Ou: O Barão está sob o regime do Estado Novo: não pode falar. Várias vezes preso.
3 - Há males que vêm para bem. Mas seria melhor que não viessem.
4 - O dinheiro é a causa de todas as desgraças. Quando não se tem.
5 - João Neves é disco voador: pequeno, chato e ninguém acredita.
6 - O juiz: - O senhor foi visto conversando com Luiz Carlos Prestes.
7- Impossível. Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho.
Fundou "A Manhã". Não queria os militares no poder:
- Os tenentes (de 1922, 24) querem tomar o governo porque dizem respeitar os dinheiros públicos. Seria o caso de se fazer uma experiência com os capuchinhos e as irmãs de caridade.
Defendia o governo de Artur Bernardes (1922- 26) e o estado de sítio. Fazia sucesso a coluna "Amanhã Tem Mais", de um jovem humorista gaúcho, saído de "O Globo", Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Apporelly, depois o incomparavel Barão de Itararé, que um dia lhe disse:
- Mario, fora do governo sua reputação é a pior possível.
- Sossegue, meu filho. No jornalismo, é melhor ter má reputação do que não ter reputação nenhuma.
Mario Rodrigues
Uma tarde, muito calor na redação, Apporelly disse a Mario:
- Vamos tomar alguma coisa?
- De quem?
Um ano depois de inaugurado o jornal, as oficinas entraram em greve, por falta de pagamento. Mario foi a Belo Horizonte e pediu 80 contos a Mello Viana, presidente (governador) do estado. Mello Viana deu. Mario pensou que aquele era seu dia de sorte, entrou em um cassino, jogou tudo, perdeu tudo. Desesperado, voltou para o Rio, disse a Apporelly:
- Sou um canalha, tirei o pão da boca de meus filhos. Vou me matar.
- Doutor Mario, conhece a "teoria do dá"? Vai lá e pede de novo.
- Você acha?
- Quem dá uma vez, dá duas.
Mario Rodrigues voltou ao Palácio da Liberdade e pediu mais 80 contos a Mello Viana que, sabendo que ele queria se matar, deu mais 80 contos. Pensando recuperar o primeiro dinheiro, Mario voltou ao Cassino do Bomfim e perdeu tudo de novo. Foi uma tragédia. Agora, ia se matar.
Mello Viana
No Rio, tentou pular da janela do quarto andar do hotel onde Apporelly morava. Apporelly impediu. E voltou à "teoria do dá":
- Doutor Mario, escute. Quem dá uma e dá duas, dá três. Se ele não tivesse dado uma, não dava duas nem três. Deu, dá. Vai lá e pede de novo.
Mario foi e, sob ameaça de ser posto na cadeia se voltasse ao cassino, conseguiu voltar com o dinheiro. Abraçava Appporelly:
- Meu filho, você é um gênio. Um gênio!
- Doutor Mario, agora bem que o senhor podia me pagar. Faz um ano que eu trabalho e não recebo nada.
- Meu filho, quem dá um ano de trabalho de graça, dá dois e dá três. Se você não tivesse dado um, não dava dois nem três. Mas deu, dá.
Apporelly saiu e fundou "A Manha", "um jornal de ataques... de riso".
O primeiro número saiu atrasado para que os leitores pagassem em dobro. Não tinha expediente: "Jornal sério não vive de expediente". No segundo número, fez o primeiro aniversário, "para ganhar a credibilidade do leitor".
Ipojuca Pontes
Ótimas histórias, não são? Você, leitor, ainda não viu nada. Hoje, às 20 horas, na Livraria da Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá, 572), o jornalista e cineasta Ipojuca Pontes lança "A Manha do Barão - Confissões de bom e mau humor", uma peça de teatro que é um longo, magnífico, irresistível monólogo do gênio do humor brasileiro, o Barão de Itararé.
Ipojuca teve a sorte de ser vizinho do Barão, na Praça São Salvador, no Flamengo, Rio, e conversar muito com ele, antes de ele morrer, em 27 de novembro de 71 (nasceu em São Leopoldo, RG, em 1895). Depois, procurou o irmão Edecio, os filhos. Em novembro de 72, em um sebo de São Paulo, encontrou a coleção completa de "A Manha". Comprou na hora.
Chico Anisio
E também conseguiu uma coleção dos "Almanahques", a revista do Barão, que acabou eleito vereador do Rio pelo Partido Comunista em 1947 e logo depois cassado e preso, com a cassação do PCB pelo governo Dutra.
Só falta agora o Ipojuca entregar a peça ao outro gênio do humor brasileiro, o Chico Anísio, para vir o sucesso certo, que virá.
Não vou, não posso, contar o livro todo. Mas não há brasileiro que não conheça "uma do Barão", suas frases perfeitas, definitivas, inesquecíveis:
1 - Na Faculdade de Medicina (fez só três anos, no Rio Grande), o examinador, irritado com suas respostas zombeteiras, lhe perguntou:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro. Dois meus e dois seus. A menos que o senhor seja anormal.
Foi reprovado e abandonou.
Prestes
2 - Na ditadura de Vargas, só o chamava de G.Tulio Dor Nelles Vargas. Dizia: O Estado Novo é o estado a que chegamos. Ou: O Barão está sob o regime do Estado Novo: não pode falar. Várias vezes preso.
3 - Há males que vêm para bem. Mas seria melhor que não viessem.
4 - O dinheiro é a causa de todas as desgraças. Quando não se tem.
5 - João Neves é disco voador: pequeno, chato e ninguém acredita.
6 - O juiz: - O senhor foi visto conversando com Luiz Carlos Prestes.
7- Impossível. Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
D. Pedro II deu conselhos ao Lula?
BRASÍLIA - Auxiliares do presidente Lula aguardavam sua chegada à capital federal, hoje, para obter informações sobre estranhos acontecimentos verificados na noite de sexta-feira para sábado passados, no Palácio Rio Negro, em Petrópolis. Porque rumores chegados a Brasília davam conta de ter sido o sono do casal presidencial perturbado por estranhos ruídos.
Uma espécie de arrastar de correntes no sótão, súbitas ondas de frio percorrendo os corredores, gemidos sem identificação e até a aparição do vulto esfumaçado de um velho de barbas brancas nos salões do andar térreo faz parte dos cochichos dos poucos assessores que acompanharam o presidente Lula e Dona Marisa ao antigo palácio de verão dos presidentes de décadas atrás, onde pernoitaram a convite do governador Sérgio Cabral.
Provavelmente tudo não passe de boatos, afinal o Lula e sua mulher não sofrem de insônia nem de pesadelos, mas agentes de segurança imaginam ter visto D. Pedro II perambulando pelo antigo casarão. Afinal, o Palácio Rio Negro fica a um pulo do Museu Imperial, onde há muito se afirma encontrar-se o espírito de nosso segundo imperador. Ele teria atravessado a rua para dar conselhos ao atual presidente? Pelo menos tentado chamar a atenção do Lula para algum mau augúrio prestes a acontecer no País?
Ou, como parece mais provável, queria apenas incorporar-se à imensa maioria da opinião pública que apóia o presidente? Talvez aconselhá-lo a esticar sua permanência no poder, livrando-se dos preceitos constitucionais que limitam os mandatos atuais.
O arrastar de correntes, as ondas de frio inexplicável e os gemidos foram percebidos pelos encarregados da segurança presidencial, mas, como já se tornaram rotina em outros palácios, foram considerados quase normais. O que terá mesmo despertado a atenção dos agentes foi a estranha presença do velho de barbas brancas. Ignora-se, até agora, se o presidente Lula acordou se percebeu a inusitada visita e até se chegou a conversar com D. Pedro II. Mais ainda, se aceitou os supostos conselhos de ir ficando no governo. Só ele poderá esclarecer, se quiser.
Quando lembramos que certos barulhos acontecem pela madrugada, em outros palácios, estamos nos referindo ao Alvorada. Nos tempos do marechal Castelo Branco, o piano de cauda do andar térreo costumava tocar sozinho, parece que alguns acordes do Hino Nacional. O general Garrastazu Médici trancava seus aposentos particulares, no segundo andar, proibindo a família de descer, e o general Ernesto Geisel apelava para expressões pouco vernaculares todas as vezes que lhe parecia ver o presidente Juscelino Kubitschek abrindo os braços, como a perguntar se o governo investigara em profundidade o acidente automobilístico que o vitimou.
Talvez por isso José Sarney espalhasse incenso e alho nos peitoris das janelas, e Fernando Collor jamais tenha dormido uma só noite na residência oficial. Quanto a Fernando Henrique, dizem que até gostava daquele cheirinho de enxofre percebido nas noites de sexta-feira. Enfim, são bastidores da atividade governamental que não constam de relatórios nem de biografias...
Um vazio para ninguém botar defeito
De hoje até terça-feira, 7 de outubro, o Congresso estará em recesso remunerado. Deputados e senadores, autorizados pelos respectivos presidentes, mandaram-se para seus estados a fim de participar das três últimas semanas que nos separam das eleições municipais. Mesmo os parlamentares eleitos por Brasília, onde não haverá eleição, desaparecerão de seus gabinetes.
Alguns ranzinzas já começaram a protestar, lembrando que o eleitorado escolherá os novos prefeitos e vereadores em todo o país, ou seja, sem estarem em jogo os mandatos federais. É má vontade, porque senadores e deputados precisam cultivar suas bases. Ao menos em parte, dependem delas para reeleger-se. Precisam mostrar-se aos futuros eleitores, bem como ajudar seus respectivos partidos a eleger o maior número possível de vereadores e prefeitos.
A dúvida é se estarão todos outra vez na capital, uma vez encerradas as eleições, na noite de domingo, dia 5. Talvez não, porque na maioria das capitais dos estados haverá segundo turno para prefeito. Poucos candidatos obterão a vitória na primeira votação, tornando-se mais acirrada a disputa entre os dois primeiros colocados.
Presumindo-se que só no fim de outubro as situações se definam em grande parte das capitais estaduais, voltam-se as atenção para novembro e a primeira quinzena de dezembro, quando pela lei o Congresso estará funcionando. Muita coisa poderia ser votada, havendo vontade política. Pelo menos, estaria preenchido o vazio, não só destas três semanas, mas, com todo o respeito, do ano inteiro.
Gilmar, outra vez
Atacou de novo o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Semana passada ele anunciou a disposição de agir para que ninguém fique preso sem sentença transitada em julgado, exceção aos criminosos de alta periculosidade. As cadeias se esvaziariam, o que parece bom para os cofres públicos, mas a sociedade teria aumentados os riscos de insegurança pública. O problema, porém, não é esse. Acontece que para as sentenças transitarem em julgado, no Brasil, leva tempo.
A morosidade do aparelho judiciário e o vasto número de recursos e filigranas jurídicas constantes do Código de Processo Penal e sucedâneos esticam o mais simples dos processos por muitos anos. Ainda agora o Supremo mandou soltar nove integrantes do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, porque presos há quatro anos sequer passaram pela instrução do respectivo processo. Discute-se o grau de periculosidade desses elementos, mas a verdade é que estão na rua.
Indicaria o bom senso que antes da aplicação das regras lembradas pelo presidente do Supremo, fosse feita uma limpeza ampla na legislação que cada vez mais beneficia bandidos.
Fazer o quê?
Vamos supor, só para argumentar, que a crise na Bolívia agrave-se ainda mais, com o país rachado de alto a baixo e entregue, mais do que a badernas urbanas, à guerra civil. Nos últimos dias a fronteira com o Brasil foi fechada e o fornecimento de gás, suspenso por algumas horas. Piorando a situação, a ameaça é de continuação, sem prazo, desses e de outros inusitados.
O presidente Lula tem telefonado para o presidente Evo Morales, solidarizando-se com ele. Afinal, foi eleito democraticamente. O problema de o chefe do governo boliviano haver expulsado o embaixador dos Estados Unidos de seu território é apenas dele, mas fica claro o potencial explosivo dessa iniciativa, já que o presidente da Venezuela fez o mesmo para demonstrar de que lado está.
Hugo Chávez prometeu até ajuda militar ao colega da Bolívia, mas basta a gente olhar o mapa para ver que aviões venezuelanos, para chegar à Bolívia, não iriam dar a volta pela Colômbia e o Peru, até por falta de autorização. A linha reta pressupõe longo sobrevôo sobre território brasileiro. Teriam licença para tanto os caças Sukoi comprados aos montes por Chávez? Vamos fazer o quê?
Uma espécie de arrastar de correntes no sótão, súbitas ondas de frio percorrendo os corredores, gemidos sem identificação e até a aparição do vulto esfumaçado de um velho de barbas brancas nos salões do andar térreo faz parte dos cochichos dos poucos assessores que acompanharam o presidente Lula e Dona Marisa ao antigo palácio de verão dos presidentes de décadas atrás, onde pernoitaram a convite do governador Sérgio Cabral.
Provavelmente tudo não passe de boatos, afinal o Lula e sua mulher não sofrem de insônia nem de pesadelos, mas agentes de segurança imaginam ter visto D. Pedro II perambulando pelo antigo casarão. Afinal, o Palácio Rio Negro fica a um pulo do Museu Imperial, onde há muito se afirma encontrar-se o espírito de nosso segundo imperador. Ele teria atravessado a rua para dar conselhos ao atual presidente? Pelo menos tentado chamar a atenção do Lula para algum mau augúrio prestes a acontecer no País?
Ou, como parece mais provável, queria apenas incorporar-se à imensa maioria da opinião pública que apóia o presidente? Talvez aconselhá-lo a esticar sua permanência no poder, livrando-se dos preceitos constitucionais que limitam os mandatos atuais.
O arrastar de correntes, as ondas de frio inexplicável e os gemidos foram percebidos pelos encarregados da segurança presidencial, mas, como já se tornaram rotina em outros palácios, foram considerados quase normais. O que terá mesmo despertado a atenção dos agentes foi a estranha presença do velho de barbas brancas. Ignora-se, até agora, se o presidente Lula acordou se percebeu a inusitada visita e até se chegou a conversar com D. Pedro II. Mais ainda, se aceitou os supostos conselhos de ir ficando no governo. Só ele poderá esclarecer, se quiser.
Quando lembramos que certos barulhos acontecem pela madrugada, em outros palácios, estamos nos referindo ao Alvorada. Nos tempos do marechal Castelo Branco, o piano de cauda do andar térreo costumava tocar sozinho, parece que alguns acordes do Hino Nacional. O general Garrastazu Médici trancava seus aposentos particulares, no segundo andar, proibindo a família de descer, e o general Ernesto Geisel apelava para expressões pouco vernaculares todas as vezes que lhe parecia ver o presidente Juscelino Kubitschek abrindo os braços, como a perguntar se o governo investigara em profundidade o acidente automobilístico que o vitimou.
Talvez por isso José Sarney espalhasse incenso e alho nos peitoris das janelas, e Fernando Collor jamais tenha dormido uma só noite na residência oficial. Quanto a Fernando Henrique, dizem que até gostava daquele cheirinho de enxofre percebido nas noites de sexta-feira. Enfim, são bastidores da atividade governamental que não constam de relatórios nem de biografias...
Um vazio para ninguém botar defeito
De hoje até terça-feira, 7 de outubro, o Congresso estará em recesso remunerado. Deputados e senadores, autorizados pelos respectivos presidentes, mandaram-se para seus estados a fim de participar das três últimas semanas que nos separam das eleições municipais. Mesmo os parlamentares eleitos por Brasília, onde não haverá eleição, desaparecerão de seus gabinetes.
Alguns ranzinzas já começaram a protestar, lembrando que o eleitorado escolherá os novos prefeitos e vereadores em todo o país, ou seja, sem estarem em jogo os mandatos federais. É má vontade, porque senadores e deputados precisam cultivar suas bases. Ao menos em parte, dependem delas para reeleger-se. Precisam mostrar-se aos futuros eleitores, bem como ajudar seus respectivos partidos a eleger o maior número possível de vereadores e prefeitos.
A dúvida é se estarão todos outra vez na capital, uma vez encerradas as eleições, na noite de domingo, dia 5. Talvez não, porque na maioria das capitais dos estados haverá segundo turno para prefeito. Poucos candidatos obterão a vitória na primeira votação, tornando-se mais acirrada a disputa entre os dois primeiros colocados.
Presumindo-se que só no fim de outubro as situações se definam em grande parte das capitais estaduais, voltam-se as atenção para novembro e a primeira quinzena de dezembro, quando pela lei o Congresso estará funcionando. Muita coisa poderia ser votada, havendo vontade política. Pelo menos, estaria preenchido o vazio, não só destas três semanas, mas, com todo o respeito, do ano inteiro.
Gilmar, outra vez
Atacou de novo o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Semana passada ele anunciou a disposição de agir para que ninguém fique preso sem sentença transitada em julgado, exceção aos criminosos de alta periculosidade. As cadeias se esvaziariam, o que parece bom para os cofres públicos, mas a sociedade teria aumentados os riscos de insegurança pública. O problema, porém, não é esse. Acontece que para as sentenças transitarem em julgado, no Brasil, leva tempo.
A morosidade do aparelho judiciário e o vasto número de recursos e filigranas jurídicas constantes do Código de Processo Penal e sucedâneos esticam o mais simples dos processos por muitos anos. Ainda agora o Supremo mandou soltar nove integrantes do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, porque presos há quatro anos sequer passaram pela instrução do respectivo processo. Discute-se o grau de periculosidade desses elementos, mas a verdade é que estão na rua.
Indicaria o bom senso que antes da aplicação das regras lembradas pelo presidente do Supremo, fosse feita uma limpeza ampla na legislação que cada vez mais beneficia bandidos.
Fazer o quê?
Vamos supor, só para argumentar, que a crise na Bolívia agrave-se ainda mais, com o país rachado de alto a baixo e entregue, mais do que a badernas urbanas, à guerra civil. Nos últimos dias a fronteira com o Brasil foi fechada e o fornecimento de gás, suspenso por algumas horas. Piorando a situação, a ameaça é de continuação, sem prazo, desses e de outros inusitados.
O presidente Lula tem telefonado para o presidente Evo Morales, solidarizando-se com ele. Afinal, foi eleito democraticamente. O problema de o chefe do governo boliviano haver expulsado o embaixador dos Estados Unidos de seu território é apenas dele, mas fica claro o potencial explosivo dessa iniciativa, já que o presidente da Venezuela fez o mesmo para demonstrar de que lado está.
Hugo Chávez prometeu até ajuda militar ao colega da Bolívia, mas basta a gente olhar o mapa para ver que aviões venezuelanos, para chegar à Bolívia, não iriam dar a volta pela Colômbia e o Peru, até por falta de autorização. A linha reta pressupõe longo sobrevôo sobre território brasileiro. Teriam licença para tanto os caças Sukoi comprados aos montes por Chávez? Vamos fazer o quê?
sábado, 13 de setembro de 2008
A anta que veio do gelo (Sebastião Nery)
Jimmy Carter esteve no Brasil em 1972. Passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Geórgia, foi colega de colégio da mulher de Carter e continuaram amigas pela vida afora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.
Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à presidência dos Estados Unidos
- Vossa Excelência, senhor governador da Geórgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.
Carter apenas sorriu.
Jimmy Carter
No dia seguinte, Camilo Steiner nos convidou, a alguns jornalistas, para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Helcias, secretário de Indústria e Comércio do Estado, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato do Partido Democrata em 76. Carter perguntou:
- Qual o Estado mais pobre do Brasil?
- O Piauí.
- Pois a Geórgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador do Piauí tem condições de ser o presidente do Brasil?
Anchieta também achava que não. Mas o povo americano achava.
Sarah
De repente, aparece uma anta medieval, bela anta mas anta, a Sarah, governadora do Alasca, dentro da campanha eleitoral dos Estados Unidos. E faz um furor, como vice do republicano McCain. Tão reacionária, tão atrasada, tão fundamentalista, tão distante do século XXI, que junto dela McCain virou um revolucionário e Barack Obama um incendiário.
E agora? Agora é o mistério. Como reagirá o eleitorado americano? Aqueles milhões de eleitores das pequenas cidades norte-americanas, preconceituosos e racistas, de casa para o trabalho, do trabalho para o clube, do clube para o bar, do bar para a igreja, da igreja para a frente da TV?
Os mesmos que em 1960 votaram no cosmopolita Kennedy torcendo para ele morrer e o provinciano Lindon Johnson assumir (Kennedy não morreu, eles mataram), podem estar pensando agora em eleger o frágil e doente McCain e rezar fervorosamente para ele morrer e a anta assumir.
Quem conhece os Estados Unidos é Hollyood. Lembrem-se dos filmes de Hollyood, as disputas esportivas, o fascínio pelas guerras, o racismo congênito. A anta que veio do gelo pode decidir essa eleição.
Ombudsman
Sábado é dia de ombudsman. Um velho e sábio jornalista mineiro, Monzeca, chefe de redações, ameaçava demitir quem usasse ponto e vírgula:
- Não há ponto e vírgula. Ponto é para parar, vírgula para seguir. Ponto e vírgula pára e segue, segue e pára. Para a frente e para trás. Mata o texto.
A "Folha" inventou, há muito tempo, coisa pior: a vírgula-ponto. Todo dia, nas "Frases" da página 2, ela insiste, como terça-feira:
"Acho que agora o presidente Lula está contente. Dunga, técnico da seleção, após a vitória sobre o Chile por 3 a 0, ontem na `Folha'" (sic).
Pensávamos que o jogo Brasil x Chile tinha sido no Estádio Nacional de Santiago. Mas a "Folha" diz que o jogo foi "na `Folha'", dentro da "Folha". Só não explica se foi na redação, na oficina ou lá em cima na diretoria.
"Folha"
Qualquer professorinha de escola primária teria corrigido a frase da "Folha", e corrigido com razão, mandando escrever assim:
"Acho que agora o presidente Lula está contente! Dunga, técnico da seleção, após a vitória sobre o Chile por 3 a 0. (Ponto). Ontem na `Folha'".
O "ontem na `Folha'" não faz parte da frase anterior, que fala sobre o resultado do jogo. É outra frase, sobre a publicação da declaração de Dunga, para dizer que já foi publicada no dia anterior ("ontem"), no jornal. Logo, entre as duas frases tem que haver é ponto e não vírgula.
Haddad
Se fosse apenas uma vez, seria um descuido. Mas é assim todo dia. Sistematicamente. Logo abaixo da frase do Dunga, há outra:
"Valdivia é nosso! Torcida do Brasil em Santiago, quando o jogador foi expulso da partida, ontem na `Folha'" (sic). O jogador foi expulso no campo e não "na Folha". "Ontem na Folha" tinha saído a notícia da expulsão do jogador, com o grito da torcida do Brasil. Logo, necessariamente, teria que haver ponto entre as duas frases.
Essa tolice diária da "Folha" parece bobagem, mas não é. O Ministério da Educação, comandado pelo jovem e excelente ministro Haddad, está fazendo um esforço enorme para que os alunos terminem o curso fundamental sabendo ler bem, entendendo o que leram e escrevendo.
Responsabilidade
Não é coisa de somenos importância, como diria Machado de Assis. Em um país como o nosso, de analfabetismo e semi-alfabetização ainda assustadores, onde livro é luxo, jornais e revistas são artigos educacionais.
A "Folha" é o mais influente jornal do País. Tem responsabilidade pública sobre o texto que entrega para ser lido, sobretudo pela infância e juventude. Não pode ensinar o errado. Terça-feira, estava numa manchete:
"Queda nas commodities levam (sic) bolsa brasileira a menor nível desde 2007". A "queda" "leva" e não "levam". Desculpem o mau jeito.
Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à presidência dos Estados Unidos
- Vossa Excelência, senhor governador da Geórgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.
Carter apenas sorriu.
Jimmy Carter
No dia seguinte, Camilo Steiner nos convidou, a alguns jornalistas, para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Helcias, secretário de Indústria e Comércio do Estado, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato do Partido Democrata em 76. Carter perguntou:
- Qual o Estado mais pobre do Brasil?
- O Piauí.
- Pois a Geórgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador do Piauí tem condições de ser o presidente do Brasil?
Anchieta também achava que não. Mas o povo americano achava.
Sarah
De repente, aparece uma anta medieval, bela anta mas anta, a Sarah, governadora do Alasca, dentro da campanha eleitoral dos Estados Unidos. E faz um furor, como vice do republicano McCain. Tão reacionária, tão atrasada, tão fundamentalista, tão distante do século XXI, que junto dela McCain virou um revolucionário e Barack Obama um incendiário.
E agora? Agora é o mistério. Como reagirá o eleitorado americano? Aqueles milhões de eleitores das pequenas cidades norte-americanas, preconceituosos e racistas, de casa para o trabalho, do trabalho para o clube, do clube para o bar, do bar para a igreja, da igreja para a frente da TV?
Os mesmos que em 1960 votaram no cosmopolita Kennedy torcendo para ele morrer e o provinciano Lindon Johnson assumir (Kennedy não morreu, eles mataram), podem estar pensando agora em eleger o frágil e doente McCain e rezar fervorosamente para ele morrer e a anta assumir.
Quem conhece os Estados Unidos é Hollyood. Lembrem-se dos filmes de Hollyood, as disputas esportivas, o fascínio pelas guerras, o racismo congênito. A anta que veio do gelo pode decidir essa eleição.
Ombudsman
Sábado é dia de ombudsman. Um velho e sábio jornalista mineiro, Monzeca, chefe de redações, ameaçava demitir quem usasse ponto e vírgula:
- Não há ponto e vírgula. Ponto é para parar, vírgula para seguir. Ponto e vírgula pára e segue, segue e pára. Para a frente e para trás. Mata o texto.
A "Folha" inventou, há muito tempo, coisa pior: a vírgula-ponto. Todo dia, nas "Frases" da página 2, ela insiste, como terça-feira:
"Acho que agora o presidente Lula está contente. Dunga, técnico da seleção, após a vitória sobre o Chile por 3 a 0, ontem na `Folha'" (sic).
Pensávamos que o jogo Brasil x Chile tinha sido no Estádio Nacional de Santiago. Mas a "Folha" diz que o jogo foi "na `Folha'", dentro da "Folha". Só não explica se foi na redação, na oficina ou lá em cima na diretoria.
"Folha"
Qualquer professorinha de escola primária teria corrigido a frase da "Folha", e corrigido com razão, mandando escrever assim:
"Acho que agora o presidente Lula está contente! Dunga, técnico da seleção, após a vitória sobre o Chile por 3 a 0. (Ponto). Ontem na `Folha'".
O "ontem na `Folha'" não faz parte da frase anterior, que fala sobre o resultado do jogo. É outra frase, sobre a publicação da declaração de Dunga, para dizer que já foi publicada no dia anterior ("ontem"), no jornal. Logo, entre as duas frases tem que haver é ponto e não vírgula.
Haddad
Se fosse apenas uma vez, seria um descuido. Mas é assim todo dia. Sistematicamente. Logo abaixo da frase do Dunga, há outra:
"Valdivia é nosso! Torcida do Brasil em Santiago, quando o jogador foi expulso da partida, ontem na `Folha'" (sic). O jogador foi expulso no campo e não "na Folha". "Ontem na Folha" tinha saído a notícia da expulsão do jogador, com o grito da torcida do Brasil. Logo, necessariamente, teria que haver ponto entre as duas frases.
Essa tolice diária da "Folha" parece bobagem, mas não é. O Ministério da Educação, comandado pelo jovem e excelente ministro Haddad, está fazendo um esforço enorme para que os alunos terminem o curso fundamental sabendo ler bem, entendendo o que leram e escrevendo.
Responsabilidade
Não é coisa de somenos importância, como diria Machado de Assis. Em um país como o nosso, de analfabetismo e semi-alfabetização ainda assustadores, onde livro é luxo, jornais e revistas são artigos educacionais.
A "Folha" é o mais influente jornal do País. Tem responsabilidade pública sobre o texto que entrega para ser lido, sobretudo pela infância e juventude. Não pode ensinar o errado. Terça-feira, estava numa manchete:
"Queda nas commodities levam (sic) bolsa brasileira a menor nível desde 2007". A "queda" "leva" e não "levam". Desculpem o mau jeito.
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